
Fonte: MST/Jornal Nova Democracia
Filho de António Pereira Rebouças e de Carolina Pinto Rebouças, André Pinto Rebouças é um dos mais influentes intelectuais e abolicionistas negros do século XIX, cuja vida e pensamento têm sido alvo de amplos estudos[i]. Nascido em janeiro de 1838, na Cachoeira, Bahia, Rebouças é o primogénito de uma família de sete irmãos[ii]. O pai, António Pereira Rebouças, filho de uma ex-escravizada e de um alfaiate português, foi uma ilustre personalidade do Brasil monarquista, tendo sido advogado e conselheiro de Dom Pedro II. Sobre a mãe, Carolina Pinto Rebouças, sabe-se que era filha de um rico comerciante português, André Pinto Silveira.
Formado em Engenharia Militar pela Escola de Aplicação da Praia Vermelha em 1860, André Rebouças é considerado—junto com o irmão António Rebouças, que também seguiu o mesmo percurso académico— uma das primeiras pessoas negras brasileiras a frequentar uma universidade e um dos primeiros engenheiros negros do Brasil[iii]. Os contributos dos irmãos engenheiros estão marcados em importantes infraestruturas do Brasil, como a Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, uma ferrovia de 110 quilómetros que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá, utilizada até hoje é considerada uma das mais impressionantes obras da engenharia brasileira[iv].
Além das ferrovias, os irmãos Rebouças desempenharam um papel fundamental na construção de infraestruturas hidráulicas que resolveram crises de abastecimento de água em várias cidades brasileiras, entre outras construções nacionais que levam a sua assinatura, tendo inclusive desenvolvido um torpedo utilizado na Guerra do Paraguai de 1864[v]. Tal como o pai, André Rebouças foi conselheiro do imperador Dom Pedro II, com quem tinha uma relação de proximidade, tendo-o acompanhado no seu exílio após o golpe político-militar que dissolveu a monarquia.
Um dos maiores e mais interessantes legados de André Rebouças terá sido o envolvimento no movimento abolicionista, particularmente a sua participação na fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e da Sociedade Abolicionista em 1880, junto com Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, dois outros grandes abolicionistas negros[vi].
Crítico do sistema socioeconómico brasileiro, dominado pelos interesses aristocráticos e absolutistas e defensor de uma reforma agrária que passava pela distribuição de terras para as pessoas escravizadas, viu no republicanismo uma manobra dos antigos senhores de escravos e terras para manter os seus privilégios[vii]. Com a vitória dos republicanos, André Rebouças parte com a família real para a Europa, tendo vivido inicialmente em Lisboa como jornalista correspondente do “The Times” de Londres, onde escreveu o seu primeiro artigo sobre África, intitulado “O Problema da África”[viii]. De seguida, vive por um tempo em França, particularmente em Marselha, onde passa a assumir a sua “alma africana”[ix]. Atravessando o Canal de Suez, faz a sua primeira incursão ao continente, instalando-se em Lourenço Marques, Moçambique, com a intenção de trabalhar na construção dos caminhos de ferro de Luanda a Ambaca[x]. Abandonando esse projeto inicial, parte para a África do Sul, onde destacou os desafios da luta contra o trabalho escravizado em cartas escritas a Rangel Costa, um amigo português.
Na África Oriental ainda estão muito vivos os estigmas do hediondo escravagismo”, escrevia, mas acreditava que “aqui, na África do Sul, o negro já está evoluindo para a Democracia Rural; já tem casa, plantação…[xi].
No entanto, logo se confrontaria com o racismo visceral dos bôeres e dos ingleses e, em cartas a Taunay, elenca uma série de observações sobre as injustiças do sistema colonial inglês que insistia em:
Recusar propriedade territorial ao Africano – Que horror!? O Africano não pode ser proprietário territorial no seu próprio continente africano! Recusar ao africano direitos eleitorais; sujeitá-lo a leis bárbaras; julgá-lo em tribunais ad-hoc; usando e abusando da atroz pena de açoite. Dar curso à brutalidade yankee de recusar Negros e Mulatos nos hotéis e até criar dificuldades em vender-lhes nas lojas de moda e perfumaria[xii].
Numa outra carta a Nabuco e Patrocínio, escreveu: .“Os Republicanos Escravocratas do Transvaal dizem: ‘To make Money is necessary slavery’”[xiii] As cartas de Rebouças têm sido objeto de várias publicações e estudos[xiv]. Muitas dessas cartas, onde analisa a situação social e política do Brasil, a escravatura e a condição das pessoas negras, foram escritas a partir do seu exílio na Europa e particularmente nas suas viagens pelo continente africano. A partir de meados de 1893, Rebouças mudou-se para o Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal, onde passou os últimos anos da sua vida dedicando-se à escrita e à reflexão sobre as suas experiências e desilusões[xv]. De acordo com um dos seus biógrafos Leo Spitzer, as suas cartas desse período revelam um homem profundamente abatido, que via o Brasil como uma “civilização extinta”, incapaz de superar as heranças coloniais que ainda o oprimiam. A partir do Funchal, Rebouças continuou a lutar contra o racismo e a defender a propriedade da terra para os africanos, mas as suas esperanças de ver essas mudanças ocorrerem diminuíam a cada dia. A solidão e a depressão culminaram na destila trágica morte em 9 de maio de 1898, quando, aos 60 anos, se suicidou, atirando-se de um penhasco na ilha[xvi]. Assim relatava a sua morte, o jornal Correio do Funchal:
Esta manhã foi encontrado morto no mar, junto ao “New Hotel-Bed”, o cadáver do subdito brazileiro (sic), nosso hóspede desde há anos, dr. André Rebouças. Este cavalheiro que exerceu nos tempos do Império um elevado cargo público, apresentava desde há tempos signais (sic) de transtorno intelectual e suppõe-se (sic) que elle (sic) próprio se tenha atirado no mar. O infeliz recebera hontém (sic) cartas do Brazil (sic) e, desde então mostrava-se sobremaneira preocupado. Lamentamos esta desgraça e que a alma do infeliz descanse em paz.
Em 1893, numa das suas correspondências[xvii] na ilha madeirense teria escrito :
O horror dos horrores é impedir ao Africano possuir uma nesga de terra na sua própria África. Abolir esta iniqüidade e promover a constituição de núcleos de colonos Africanos com família, choupana e um lote de terras de poucos hectares é a primeira dessas reformas humanitárias”[xviii]
André Rebouças é lembrado como um dos maiores intelectuais e abolicionistas do Brasil, um defensor incansável da justiça social e da igualdade. A vida em Portugal, marcada pelo exílio e pela reflexão profunda sobre as suas lutas e derrotas, é um testemunho do seu compromisso com os ideais que defendia, mesmo quando estes se mostraram impossíveis de alcançar no contexto do final do século XIX.
Notas:
[i] Ver entre outros, Vassilieff, Irina (2022) André Rebouças – Um Negro de destaque do séc. XIX. Lisbon International Press
[ii] André Rebouças: dados biográficos, publicados em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[iii] Treigher, Thamiris (2018) Conheça a história dos Irmãos Rebouças, os primeiros engenheiros negros do Brasil, publicado em: https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-irmaos-reboucas-primeiros-engenheiros-negros-brasil
[iv] Idem
[v] Idem
[vi] André Rebouças: Dados biográficos publicado em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[vii] Porfírio, Jean (2024) “Quem possui a terra, possui o homem”: André Rebouças, opositor do monopólio feudal da terra. Publicado em: https://mst.org.br/2024/03/27/quem-possui-a-terra-possui-o-homem-andre-reboucas-opositor-do-monopolio-feudal-da-terra/
[viii] Mattos, Hebbe (2016) André Rebouças e o Pós-abolição: entre a África e o Brasil (1888-1898), In: Sidney Chalhoub, Ana Flávia Magalhães Pinto. (Org.) Pensadores Negros – Pensadoras Negras. 1ed.Belo Horizonte: EDUFRB v. 1, p. 129-144.
[ix] Idem: p,7
[x][x] Idem: p,8
[xi] Idem: p:9
[xii] Idem: p,13
[xiii] Idem: p,12
[xiv] Ver, entre outros, Rebouças André (2022) Cartas da África: registro de correspondência, 1891-1893. Mattos Hebe (org), Chão editora
[xv] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xvi] Porfírio, Jean (2024), op cit
[xvii] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xviii][xviii] Idem
























































