Sinopse: “Um filho descobre as antigas cassetes 8mm do seu pai. E, pela primeira vez, vê filmagens anteriores ao seu nascimento, da sua infância e adolescência. Ao vê-las, volta à casa onde cresceu, e começa uma investigação sobre os seus pais, para tentar compreender o trauma que viveu durante toda a sua vida”.
CRONOLOGIA DA PRESENÇA DE POVOS AFRICANOS EM PORTUGAL
Fruto do Vosso Ventre
FONTE
SILVA, F. (2021). Fruto do Vosso Ventre.
CRÉDITOS
Fábio Silva
VÍDEOS
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Pré História
PRÉ HISTÓRIA
2.58M a.C. - 11.700 a.C. | PALEOLÍTICO
O Paleolítico é um período da pré-história da humanidade, caracterizado pelo desenvolvimento da indústria lítica e pela arte rupestre. Marcado por grandes alterações climáticas, o Paleolítico corresponde ao aparecimento, desenvolvimento e migração dos primeiros humanos modernos do continente africano para o resto do mundo – a “saída de África” – e ao desaparecimento gradual das populações neandertais na Eurásia, há cerca de 40.000 anos. Em Portugal, os vestígios mais antigos do Paleolítico encontrados, até ao momento, estão localizados na Gruta da Oliveira e na Gruta da Aroeira, no complexo arqueológico do Almonda, em Torres Novas, datados de 400.000 anos atrás.
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10.300 A.C. - 5.000 A.C. | MESOLÍTICO
O Mesolítico é um período pré-histórico compreendido entre o Paleolítico e o Neolítico, tempo dos últimos caçadores-recolectores e da emergência das primeiras sociedades agro-pastoris na Europa, entre 10.300 e 5000 antes do presente (AP). Em Portugal, a ocupação mesolítica centrou-se essencialmente na zona costeira, testemunhada, até à data, pela existência de mais de 260 sítios arqueológicos (Monteiro, 2017; Strauss, 2009).
As investigações sobre o Mesolítico no país foram inauguradas pela equipa do geógrafo Carlos Ribeiro, com a descoberta do complexo dos Concheiros de Muge, nomeadamente dos concheiros de Arneiro-do-Roquete e Cabeço da Arruda (1863) e, posteriormente, de Moita do Sebastião, Cabeço da Amoreira e Fonte do Padre Pedro (1884) – localizados na margem esquerda do Vale do Tejo, em Salvaterra de Magos, e datados circa 8100 e 7100 AP (Bicho et al., 2013). Contudo, estas estruturas estão presentes um pouco por todo o globo, do Brazil (sambaquis) aos Estados Unidos (Shell middens), da Dinamarca (Køkkenmøddinger) à África do Sul onde se situa o mais antigo concheiro do mundo.
Referências
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8100 a.C – 7100 a.C. | CONCHEIROS (DE MUGE)
Foi no âmbito das Comissões Geológicas de Portugal (1857-1918) que, em 1863, uma equipa liderada pelo geógrafo Carlos Ribeiro e pelo médico e intelectual Francisco Pereira da Costa identificou, pela primeira vez, testemunhos arqueológicos pré-históricos nos vales das ribeiras de Magos e Muge, denominados Concheiros. Datados circa 8100 e 7100 AP (Bicho et al., 2013), os concheiros de Muge – mais tarde em conjunto com os do Vale do Sado – tornar-se-iam o mais importante vestígio arqueológico do período Mesolítico no país (e no continente) devido à quantidade ímpar de restos humanos que abrigavam e ao seu elevado grau de preservação. A saber, os concheiros são estruturas compostas essencialmente por conchas de moluscos diversos capazes de preservar fragmentos de artefactos de pedra ou cerâmica, bem como esqueletos de humanos e de animais, permitindo recontar, pela mão da arqueologia, da antropologia e, mais recentemente, da genética – através de análises de ADN antigo[i] e datações de radiocarbono – a vida dos últimos caçadores-recolectores da Península Ibérica, ou seja, de um passado que antecede a escrita.

Escavações Arqueológicas no Concheiro do Cabeço da Amoreira
Em sintonia com o debate científico internacional sobre a origem das espécies[ii] bem como da consolidação das soberanias nacionais, também Portugal se indagava, em finais do século XIX, sobre as origens do seu povo, sobre quem seriam, afinal, os portugueses. É exatamente por esta altura que o antropólogo Francisco de Paula e Oliveira identifica, ainda que com algumas reservas, e tal como espelhado na sua obra Anthropologia prehistorica. As raças dos kjoekkenmoeddings de Mugem[iii] (1881), o que entendeu como a coexistência de populações braquicéfalas e dolicocéfalas (Cardoso, 2013). Terá sido esta a primeira vez que trabalhos desenvolvidos a partir dos esqueletos exumados em Muge, no concelho de Salvaterra de Magos, em que se apontou, à luz da antropologia do século XIX, para a existência de diferenças morfológicas cranianas entre os últimos caçadores-recolectores que indicariam a coexistência de populações distintas no Mesolítico português. Em 1907 seria a vez de António Aurélio da Costa Ferreira, partindo do estudo do material antropológico do concheiro do Cabeço de Arruda – parte do complexo dos concheiros de Muge –, preconizar também a existência de uma raça particular em Muge – a raça de Mugem –, afirmado que esta se distinguiria por um conjunto de características entendidas então como negróides (Abrunhosa, 2012: 72). Contudo, só mais tarde e a propósito de trabalhos arqueológicos desenvolvidos a partir do concheiro do Cabeço da Amoreira, António Mendes Correia exploraria, em detalhe, as hipóteses anteriormente levantadas pelos seus homónimos, defendendo a existência – a partir dos restos mortais estudados – do que denominou como Homo afer Taganus (Correia, 1936). De acordo com uma perspetiva antropológica racista e racialista, o antropólogo Mendes Correia defendeu, por meio de mensurações e comparações entre restos humanos, que um destes esqueletos evidenciava um conjunto de características morfológicas então entendidas como negróides, tais como dolicocefalia, pequena estatura, crânio alongado, nariz sobre o largo, face proeminente e proporções dos membros afins das de certas raças inferiores – populações em muito semelhantes aos pigmeus africanos e às populações etíopes e com origem no Norte de África (Correia, 1928: 110 apud Abrunhosa 2012: 73; Correia, 1941). É deste modo que ganha forma a tese da origem africana das populações mesolíticas de Muge segundo a qual era “indubitável que alguns dos primeiros habitantes da Ibéria tinham uma origem meridional, visivelmente africana, sendo impressivas as relações entre o Capsiense do Norte de África e algumas civilizações do Paleolítico Final e do préneolítico do sudoeste europeu” (cf. Cardoso e Rolão, 1999/2000: 96).

Tentativa Reconstituição Homem Pré Histórico, Agostinho Rodrigues (Museu História Natural FCUP)
Se a teoria de Mendes Correia ecoou num conjunto de outros trabalhos (i.e., G. Hervé ou A. Ataíde), esta foi também veementemente contestada por arqueólogos como M. Heleno ou H. Vallois, vindo a razão a pender para os últimos (Cardoso, 2000; Cardoso e Rolão, 1999/2000). Embora o próprio Mendes Correia acabasse, mais tarde, por aceitar a origem meridional das populações de Muge, não pode descurar-se o modo como a ideia de uma origem africana da nação – sublinhando, contudo, sempre os parcos vestígios deixados na população portuguesa sua contemporânea – encaixava então na perfeição com a propaganda nacionalista, multiracialista e pluricontinental que procurava legitimar e sustentar a manutenção da violência e a espoliação coloniais no continente africano, em particular pós-1960 (cf. Stjerna, 2017).
Contudo, esta hipótese seria abandonada pelos estudos arqueológicos e antropológicos em Portugal e, mesmo que as migrações do norte de África se tornassem consensuais na consolidação da (pré)história da Península Ibérica, a verdade é que a partir da década de 1970, o norte de África, praticamente, desapareceu dos mapas arqueológicos que recontam a história da península (Diniz, 2007). No decorrer do Paleolítico, a Península Ibérica terá funcionado como um refúgio à glaciação e, por isso mesmo, encerrava em si uma linhagem genética particular, distinta face ao resto do continente (Entrevista a geneticista, 14/06/2023). Ademais, o contacto com o norte de África parece somente acontecer a partir do período Neolítico e, inicialmente no sentido norte-sul; só mais tarde, já no decorrer do Calcolítico parecem adensar-se os vestígios da presença africana na península (i.e., enterramentos e cultura material). Estes dados genéticos recentes parecem reforçar a oposição de Manuel Heleno à teoria de Mendes Correia que – apoiado em fortes evidências arqueológicas – “comparou a difusão da cultura megalítica a um imperialismo pré-histórico cuja fonte de desenvolvimento era de génese portuguesa” (Peyroteo-Stjerna, 2017: 84), sustentando, a partir da arqueologia pré-histórica, uma outra narrativa sobre as origens do povo português, em linha com o que acontecia, então, em outras latitudes europeias, também aqui a arqueologia servia para narrar e tornar coerente a nação e a identidade nacional:
From the late nineteenth century throughout the first half of the twentieth century, European archaeology studied its human osteological collections from racial perspectives, aiming at finding national identities based on narratives of origins, selected relations and networks. Although based on different motivations, these narratives had strong nationalistic accents. As discussed, in Portugal, the Tagus valley collections were implicated, although modestly, in arguments related to identity, ancestry, and origins. […]. In a country such as Portugal, with a very long history, located in a geographic space where no reasons besides political ones could justify its independence, it seems quite obvious that nationalistic discourses favoured historical periods rather than prehistory, classical antiquity or the early Middle Ages. Even so, Portuguese archaeologists with nationalistic aims have tried, with little success to relocate the roots of the nation deeper in history, chiefly as an attempt to achieve social relevance in the eyes of both political power and public opinion (Stjerna, 2017: 85).
Com a eclosão da II Guerra Mundial e o abandono das teorias racialistas pela disciplina de Antropologia, não mais se voltaria aos debates sobre a origem africana dos restos mortais de Muge, desacreditados, desde logo, pelos métodos racistas que conduziram Mendes Correia e outros a defender a existência do Homo afer Taganus.
Contudo, este debate viria, de certo modo, a ser relançado – mesmo que por breves instante – quando, em 2022, uma equipa multidisciplinar, dirigida pela arqueóloga biomolecular Rita Peyroteo Stjerna identificou, entre restos mortais provenientes do concheiro de Cabeço da Amoreira (Muge), e sem que nada o fizesse adivinhar, um indivíduo de origem africana. Nada neste enterramento intencional[iv] faria adivinhar, mas os resultados da análise de ADN antigo e, em particular, dos dados uni-parentais – cromossoma Y (linhagem paterna) e DNA mitocondrial (linhagem materna) – trouxeram, pela coincidência, reminiscências do debate que, em tempos, ligou a pré-história da Península Ibérica à do continente africano (entrevistas a arqueóloga, 02/06/2023 e geneticista, 14/06/2023). No entanto, a datação do osso, através de análises subsequentes de radiocarbono revelaram uma outra história, bem mais recente do que aquela à qual nos habituaram os concheiros mesolíticos.
O estudo do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal) e da Universidade de Uppsala (Suécia) mostrou é que entre os restos mortais deste Concheiro Mesolítico repousava o corpo de um homem, originário da África Ocidental, negro – de pele escura – que terá vivido e morrido em Portugal, entre os séculos XVII e XVIII (circa 1600-1750) (Peyroteo-Stjerna et al., 2022). Ao que tudo indica, este homem seria proveniente da zona da Senegâmbia,[v] trazido forçadamente para Portugal no âmbito do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, onde terá vivido, ao que tudo indica a sua dieta, por uma década, até à sua morte, não sendo possível proceder à sua identificação concreta (Idem). De resto, a existência de pessoas escravizadas não seria estranha ao Vale do Tejo já que o Concheiro, em particular, estava localizado na Casa do Cadaval, há muito propriedade da nobreza e inserida numa região agrícola onde trabalhavam populações escravizadas (entrevista a arqueóloga, 02/06/2023). No entanto, não foi possível uma identificação concreta da pessoa encontrada, por dois motivos. Por um lado, embora conste dos registos paroquiais uma pessoa “parda” assassinada no Concheiro do Arneiro da Amoreira neste mesmo período, atesta-se que este homem terá sido enterrado nas proximidades da Igreja; por outro, de acordo com o DNA antigo, os restos mortais correspondem a uma pessoa negra, de pele escura, não “parda”.
Importante, este achado parece apontar para que, no decorrer do período da escravatura transatlântica, comunidades africanas escravizadas possam “ter desenvolvido estratégias para preservar os seus valores e identidade sociocultural”, e que por forma a “manter crenças e tradições específicas” estas populações deslocadas forçadamente para Portugal poderão ter encontrado no concheiro do Cabeço da Amoreira o local ideal para o enterro, uma vez que “concheiros semelhantes aos de Muge são usados, até aos dias de hoje, na África Ocidental” (Peyroteo-Stjerna et al., 2022; Mirante, 2022; Público, 2022). Embora não sejam conhecidas práticas funerárias modernas nos concheiros em Portugal, de facto esta é, até ao momento, a única, sabe-se que os concheiros eram conhecidos das populações como locais de enterramento. Neste sentido, é importante sublinhar a excepcionalidade do achado, já que embora os concheiros e os seus restos mortais sejam amplamente estudados todos são datados do Mesolítico, sendo este o único identificado como africano e de outro período histórico. No entanto, mesmo sendo expectável que pudessem aparecer mais restos mortais no mesmo ou em outro concheiro é sabido que perante a norma católica, os enterramentos deviam ser feitos nas imediações da igreja e que, por vezes, a identificação dos restos mortais é difícil tanto pela escassez de recursos como pelo corte e consecutiva degradação das amostras de osso (entrevista a arqueóloga, 02/06/2023).
Note-se, no entanto, que a informação extraível do osso a partir de testes de ADN antigo, se preservado, é inúmera, nomeadamente, através do somatório de um conjunto de variáveis, é possível aferir sobre o fenótipo[vi], nomeadamente aferir sobre a cor da pele dos últimos caçadores-recolectores no continente europeu e aqui em particular na Península Ibérica. De facto, dados genéticos recentes apontam para que as populações mesolíticas europeias fossem compostas por pessoas de pele escura e olhos claros, tal como exemplifica a recente reconstituição do homem de Cheddar, localizado em Inglaterra, exatamente neste período e que hoje repousa no Museu de História Natural, em Londres.[vii]
Homem de Cheddar, um esqueleto do Mesolítico identificado na Gruta de Gough, em Cheddar Gorge (Somerset, United Kingdom), em 1903. Fonte: Natural History Museum.
É no decorrer do Neolítico, essencialmente devido a processos migratórios – continentais e mediterrânicos – de populações do Oriente Médio, em particular da Anatólia e que consigo trouxeram o “pacote do neolítico” (i.e., agricultura, pastorícia ou cerâmica) para o espaço europeu, que se assiste ao embranquecimento da pele das populações do continente e se tornam mais comuns, em algumas regiões europeias, os olhos castanhos, através de um processo de mistura e replacement genético (entrevista a geneticista, 14/06/2023).
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[i] O DNA permite-nos aferir o perfil genético das pessoas. Neste sentido, por vezes, questões que foram durante muito tempo debatidas pela arqueologia, como por exemplo o processo de transição do Mesolítico para o Neolítico – se resultou de processos locais e de vizinhança ou de migrações externas – é passível de ser explicado a partir da análise do DNA antigo preservado num osso ou mesmo num dente (entrevista a geneticista, 14/06/2023).
[ii] Charles Darwin havia publicado A Origem das Espécies em 1860.
[iii] Cf. Fernando de Paula e Oliveira (1881) – Anthropologia prehistorica. As raças dos kjoekkenmoeddings de Mugem. Lisboa: Typographia Popular.
[iv] Intencional, não há nada que distinga este enterramento dos do mesolítico, visto tratar-se de um enterramento simples, em covacho, na areia e sem cultura material associada, não sendo por isso possível distingui-lo dos do mesolítico, pela simples observação arqueológica ou antropológica. De notar, no entanto, que curiosamente quando se refere ao Homo Taganus, Mendes Correia indica que este indivíduo se distingue também por estar mais bem preservado e por ter outra estatura, se bem que esta variabilidade também poderia acontecer entre esqueletos da mesma época (entrevista a geneticista, 14/06/2023).
[v] Note-se que, no entanto, as comparações e correspondência são possíveis de acordo com os dados existentes e que não há dados disponíveis para o que é hoje a Guiné Bissau, por exemplo.
[vi] No entanto, deve sublinhar-se que o genoma humano tem milhões de posições mutáveis e que somente uma parte ínfima tem reflexo no fenótipo, ou seja a informação do genoma que se traduz em diferenças visíveis é, na realidade, ínfima. Ou seja, a maneira como nós somos diferentes de uma pessoa negra vai muito além da cor da nossa pele. Além do mais, aquilo que nós sabemos hoje onde, no genoma, está codificada a informação para a cor de pele, dos olhos ou do cabelo pode não refletir a variabilidade que existia nos povos antigos: podia haver outras posições no genoma no passado diferentes para estes fenótipos e que nós desconhecemos (entrevista a geneticista, 14/06/2023).
[vii] https://www.nhm.ac.uk/discover/cheddar-man-mesolithic-britain-blue-eyed-boy.html.
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- SEBASTIÃO, L.F. (2000). O primeiro e o último habitante dos Concheiros, Público, 11 de Setembro.
- PEYROTEO-STJERNA, R. (2016). Death in the Mesolithic or the Mortuary Practices of the Last Hunter-Gatherers of the South-Western Iberian Peninsula, 7th–6th Millennium BCE, Occasional Papers in Archaeology 60.
Concheiros de Muge (Século XXI)
- LUSA (2022). Complexo pré-histórico continha ossadas de africano da Idade Moderna. Público, 21 de Fevereiro.
- O MIRANTE (2022). Descoberta ‘surpreendente’ nos Concheiros de Muge, 22 de fevereiro.
- PEYROTEO-STJERNA, R. (2022). Multidisciplinary investigation reveals an individual of West African origin buried in a Portuguese Mesolithic shell midden four centuries ago. Journal of Archaeological Science: Reports 42.
12.000 A.C. - 3.000 A.C | NEOLÍTICO
Idade Antiga
IDADE ANTIGA
3000 A.C. – c. 1800 A.C. | Calcolítico
Rede de povoados campaniformes: pequenas unidades de povoamento, de raiz familiar. Necessidade de visualização do espaço a grande distância (controle) e algum tipo de fortificação.
2000 a.C. até c. 800 a.C. | Idade do Bronze
Centralização de antigos povoados: emergência de centros de poder político-económico, em altura, dominantes sobre a paisagem e sobre outros núcleos de povoamento. Elites indígenas que serão as interlocutoras com os fenícios povo africano do norte de áfrica (chegados provavelmente ainda no séc. IX a.C., a julgar pelas datações em Almaraz).
1070 A.C. | Talinka é erguida
Bratrikus entrou pelo sul da península ibérica e ergue a sua capital em talikha, perto da sevilha atual
878 A.C. | Fenícios
Povos Fenícios de origens norte africanas anteriores ao colonialismo árabe, fundaram Cartago. Nas próximas centenas de anos vagas de comércio fenício e fenício ocidental (cartagineses) chegam a Olisipo.
750 a.C. a 138 a.C. | Olisipo
700 a 646 A.C. | Presença do Faraó Taharka na Península Ibérica
400 A.C
218 a.C. até 201 a.C. | Guerras Púnicas
II Guerras Púnicas. Guerras Púnicas – Guerra de Roma contra os povos africanos do norte de África – Cartagineses. Presença na Ibéria de Hannibal o africano que pediu ajuda aos povos locais para lutar contra Roma com os seus elefantes couraçados.
200 A.C.
100
188/9-199 | Papado de Víctor I
O Papa Santo Víctor – como era também conhecido – foi o primeiro Papa nascido no continente africano de que há memória. Foi bispo de Roma e trabalhou na cidade de Leptis Magna e na região de Tripolitanea. O seu episcopado foi marcado por disputas no seio da igreja ligadas à homogeneização da data de celebração da Páscoa e ao início da utilização do latim, em substituição do grego, usado até então por outros papas. Enquanto vários historiadores argumentam que se tratava de um homem negro de origem Amazigh, Papa Victor I é representado essencialmente como homem branco. O ano estimado da sua morte é 199.

Referências
- ecWiki Enciclopédia Católica Online (s.d.). Papa San Víctor I. [https://ec.aciprensa.com/wiki/Papa_San_V%C3%ADctor_I]
- Kirsch, J. P. (1912). Pope St. Victor I, The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company [http://www.newadvent.org/cathen/15408a.htm].
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/]
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
200
300
311-314 | Papado de Miltiades
Santo Miltiades – o Africano – foi o trigésimo-segundo papa e Bispo de Roma. Nascido em Roma com ascendência Amazigh, eleito a 2 de Junho de 311 d.C. Foi durante o seu pontificado que, através do Édito de Milão que foi concedida ao Cristianismo estatuto legal no Império Romano

Referências
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/]
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
- Benedicte, V.S. (2022) Three African Popes.
409 | Invasão Bárbara
Invasão do Império Romano pelos povos ditos bárbaros. Vândalos, alanos e suevos dirigem-se para a Península Ibérica.
468 | Visigodos
476 | Fim do Império Romano do Ocidente
492-496 | Papado de Gelasius I
Papa Gelasius I nasceu em 410 d.C na província romana do Norte de África, dizendo que “nasceu romano em África”. Foi bispo de Roma de 1 de Março de 492 até à sua morte, a 19 Novembro de 496 – o terceiro e último Papa de origem Amazigh da história da igreja católica. Ortodoxo, trabalhou durante vários anos como assistente do seu antecessor e ficou conhecido como o escritor mais prolífico entre os líderes da igreja redigindo mais de 100 tratados e cartas e definindo a autoridade do papado por cinco séculos após a sua morte. Muitos dos seus escritos podem ser encontrados na biblioteca do Vaticano, em Roma.

Referências
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/].
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
- Benedicte, V.S. (2022) Three African Popes.
500
600
711 | Início da presença muçulmana na Península Ibérica.
Dinastias mais africanizadas eram as dos Almorávida (1086) e Almóada (1145), no meio entre as duas, assim como antes e após elas, houve reinos independentes e fracionados, as«taifas», até aos últimos dias de reinos de muçulmanos do al-Andalus em 1492;
Quer durante, quer fora dos governos «mais africanizados», os árabes (principalmente iemenitas, egípcios, sírios) ficaram maioritários, do ponto de vista numérico, se comparados aos próprios amazigh (berberes); mas há presença de berberes já na Península (nomeadamente no ocidente) já antes de haver al-Andalus (antes de 711);
Esta não foi uma invasão (ou uma ocupação), nem propriamente um convite, mas uma conquista relativamente pouco beligerante e por vezes favorecida pelas elites, às quais em alguns casos foi deixado um certo poder local. Por isso foi rápida, tendo em conta que os visigodos estavam em grande crise (económica, cultural, etc.) e os muçulmanos estavam na madrugada do apogeu da sua civilização (logo levavam consigo conhecimento, novas instituições, maiores possibilidade de riqueza, etc.); além disso, a própria instituição islâmica do dhimmah (pacto de proteção e convivência), permitia a pacífica convivência entre judeus, cristãos e muçulmanos, facilitou o espalhar-se do poder islâmico, a migração continuou ao longo de décadas.
714 | Conquista muçulmana de Olisipona
Idade Média
Idade Média
Finais do século XI e meados do século XII
800
900
1000
1100
1147 | D. Afonso Henriques conquista Al-Ushbuna
1170 | Foral aos mouros forros de Lisboa, por D. Afonso Henriques
1200
1252-1284 | Primeiras referências a população negra na Península Ibérica
De acordo com a hitoriadora Isabel Castro Henriques as primeiras referências a populações negras na Península Ibérica, em particular na Galiza estão “registadas numa memória escrita e iconográfica, intitula Cantidas de Santa Maria, a obra madada organizar por Afonso X, de Leão e Castela, entre 1252 e 1284, que regista a presença de uma mulher africana “negra como carvão”, “donzela feia”, “velosa como cão”, “velha de má côr”, mal cheirosa como “sison e alermã” (ave e planta), retratada com uma violência somática que vai perdurar durante séculos no vasto mundo ocidental” (Henriques, 2020: 59).
Referências
CASTRO HENRIQUES, I. e DA SILVA, J.M. (2020). Os “Pretos do Sado”: História e memória de uma comunidade alentejana de origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Edições Colibri.
1300
1348 - Peste Negra
1391 | O movimento antijudaico em Espanha
1400
1415 | Início da expansão marítima portuguesa e das guerras de conquista
1441 | Chegada a Lagos do primeiro grupo de pessoas Amazigh escravizadas
De acordo com o historiador Vitorino Magalhães Godinho, chegam a Portugal, em 1441, os primeiros 10 a 18 “cativos” azenegues “apresados” no litoral do Saara, raptados por Antão Gonçalves e Nuno Tristão, numa emboscada a um acampamento em Porto de Cavaleiro (Rio do Ouro), dos quais se obteriam as primeiras informações dadas sobre o sertão saariano, facilitando a que na viagem seguinte, em 1443, se juntassem a estes, mais 29 pessoas. Godinho refere ainda, que segundo Eanes Gomes Zurara, Tristão “era movido pelo desejo de filhar cativos em número tal que o infante começasse a tirar proveito das despesas feitas nas viagens” (1983: 155).
Referências
- Godinho, V.M. (1983). Os Descobrimentos e a Economia Mundial, Volume IV. Lisboa: Editorial Presença.
1444 | Chegada a Lagos do primeiro grande grupo de pessoas negras escravizadas
As primeiras razias à costa africana que resultaram no aprisionamento de pessoas africanas e negras começaram na década de 1440’s que, de acordo com o cronista Gomes Eanes Zurara trouxeram a Lagos, na costa algarvia, o primeiro contingente de 235 mulheres, crianças e homens africanos raptados e aprisionados na costa da Mauritânia, a 8 de agosto de 1444, testemunhada pela curiosidade de muitas pessoas que ali se juntaram (Henriques e Silva, 2020:61). É este evento que marca, em grande medida, o início do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. De facto, estima-se que entre meados de 1400s e 1761, tenham sido trazidos para Portugal cerca de 400.000 homens, mulheres e crianças (Lahon, 2004: 73-74). Entre os séculos XV e XIX estima-se que Portugal tenha sido responsável, em conjunto com o Brasil (independente desde 1822), por cerca de metade dos 12M de pessoas escravizadas no atlântico.
Referências
- Castro Henriques, I. & da Silva, J.M. (2020). Os “Pretos do Sado”: História e memória de uma comunidade alentejana de origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Edições Colibri.
- Lahon, D. (2004). O escravo africano na vida económica e social portuguesa do Antigo Regime, Africana Studia7, 73-100.
- Voyages Database (2009). Voyages: The Trans-Atlantic Slave Trade Database, http://www.slavevoyages.org.
1444 | Instalação das primeiras pessoas escravizadas em Lisboa
- Brandão, J. (1541). Da valia dos escravos que vem a esta cidade”, Estatística de Lisboa.
- Caldeira, A.M. (2019). Africanos em Lisboa no século XIX, Convivência(s)/Coexistence: Lisboa Plural, 1147-1910.
- Castro Henriques, I. (2019c). Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana Séculos XV-XXI. Portugal: Alto Comissariado para as Migrações.
- Castro Henriques, I. & Leite, P.P. (2013). Lisboa, Cidade Africana: Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana, Séculos XV-XXI. Lisboa/Ilha de Moçambique: Marca d’Água – Publicações e Projetos.
- Fonseca, J. (2010). Escravos e senhores na Lisboa quinhentista. Lisboa: Colibri.
- Júlio, A. (2021). O adro da Igreja de São Domingos (Lisboa) Análise de uma série osteológica Pós-Medieval. Dissertação de Mestrado em Evolução e Biologia Humanas apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra. Portugal.
- Manso, C. et al. (2022). Afro-Portuguese Ivories from Campo das Cebolas (Lisbon, Portugal). In J. S. Horta, C. Almeida, and P. Mark (eds.), African Ivories in the Atlantic World 1400-1900, 535–552. Lisboa: Universidade de Lisboa.
- Neto, M.C. (1994). Os negros em Lisboa no século XIX. Tentativa de caracterização histórico-biológica, Garcia de Orta – Série de Antropobiologia 7, 1 e 2.
- Pereira, F.B. (1999). Chafariz del Rei no século XVI, Os negros em Portugal. Séculos XV a XIX. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 104-107.
- Ponce, M. et al. (2017). O Sítio dos Lagares (Lisboa): Um Espaço Pluricultural. In J. Arnaud, C. Neves & A. Martins, Arqueologia em Portugal, 2017: Estado da Questão, 1703–1714. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses.
- Rijo, D. (2012). Os escravos na Lisboa Joanina. Porto: CITCEM.
- Santana, F. (1988). Processos de escravos e forros na Inquisição de Lisboa, Ler História 13, 15-30.
- Saunders, A.C. (1994). História social dos escravos e libertos negros em Portugal (1441-1555). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
- Serrão, V. (2002). O Chafariz del Rei da Ribeira Velha, em Lisboa, numa valiosa pintura do fim do século XVI, Estudos de história da arte. Novos contributos. Lisboa: Câmara Municipal, 69-76.
- Simões, S. (2015). Uma Panela na Rua da Saudade, Lisboa – Legado de Populações Escravas em Portugal? In Fuente, C. Garcia, L. Alaiza, B. Beloqui e C. Álvarez (eds.), Actas VII JIA, Arqueologias Sociales, Arqueologia em Sociedade. Vitória: Arkeogazt, 151–160.
- Sucena, E. (1994). Mocambo, Dicionário de História de Lisboa, 584.
- Sweet, J. (2013). The Hidden Histories of African Lisbon. In J. Cañizares- Esguerra et al. (org.), The Black Urban Atlantic in the age of the Slave Trade. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 233-247.
- Trindade, L. & Diogo, A. (2000). Elementos sobre o Cemitério do adro da Igreja de S. Domingos, Arqueologia e História 52, 59–71.
- Trindade, L. et al. (2001). Elementos para o Estudo dos Restos Humanos da Intervenção Arqueológica de 1991 no Cemitério do adro da Igreja de São Domingos em Lisboa, Arqueologia e História 53, 109–124.
- Vogt, J. (1973). The Lisbon Slave House and African Trade 1486-1521, Proceedings of the American Philosophical Society 117 (1), 1-16.
1452 | Bula Papal "Dum Diversas"
A 18 de Junho de 1452, o Papa Nicolau V emitiu a Bula “Dum Diversas” que concedia à cora portuguesa o direito de capturar territórios e reduzir à condição de “escravos perpétuos” as populações não-cristãs da África Ocidental.
Referências
- Papa Nicolau V (1452). Bula “Dum Diversas”, 18 de junho.
André Rebouças : Um abolicionista na encruzilhada atlântica

Fonte: MST/Jornal Nova Democracia
Filho de António Pereira Rebouças e de Carolina Pinto Rebouças, André Pinto Rebouças é um dos mais influentes intelectuais e abolicionistas negros do século XIX, cuja vida e pensamento têm sido alvo de amplos estudos[i]. Nascido em janeiro de 1838, na Cachoeira, Bahia, Rebouças é o primogénito de uma família de sete irmãos[ii]. O pai, António Pereira Rebouças, filho de uma ex-escravizada e de um alfaiate português, foi uma ilustre personalidade do Brasil monarquista, tendo sido advogado e conselheiro de Dom Pedro II. Sobre a mãe, Carolina Pinto Rebouças, sabe-se que era filha de um rico comerciante português, André Pinto Silveira.
Formado em Engenharia Militar pela Escola de Aplicação da Praia Vermelha em 1860, André Rebouças é considerado—junto com o irmão António Rebouças, que também seguiu o mesmo percurso académico— uma das primeiras pessoas negras brasileiras a frequentar uma universidade e um dos primeiros engenheiros negros do Brasil[iii]. Os contributos dos irmãos engenheiros estão marcados em importantes infraestruturas do Brasil, como a Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, uma ferrovia de 110 quilómetros que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá, utilizada até hoje é considerada uma das mais impressionantes obras da engenharia brasileira[iv].
Além das ferrovias, os irmãos Rebouças desempenharam um papel fundamental na construção de infraestruturas hidráulicas que resolveram crises de abastecimento de água em várias cidades brasileiras, entre outras construções nacionais que levam a sua assinatura, tendo inclusive desenvolvido um torpedo utilizado na Guerra do Paraguai de 1864[v]. Tal como o pai, André Rebouças foi conselheiro do imperador Dom Pedro II, com quem tinha uma relação de proximidade, tendo-o acompanhado no seu exílio após o golpe político-militar que dissolveu a monarquia.
Um dos maiores e mais interessantes legados de André Rebouças terá sido o envolvimento no movimento abolicionista, particularmente a sua participação na fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e da Sociedade Abolicionista em 1880, junto com Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, dois outros grandes abolicionistas negros[vi].
Crítico do sistema socioeconómico brasileiro, dominado pelos interesses aristocráticos e absolutistas e defensor de uma reforma agrária que passava pela distribuição de terras para as pessoas escravizadas, viu no republicanismo uma manobra dos antigos senhores de escravos e terras para manter os seus privilégios[vii]. Com a vitória dos republicanos, André Rebouças parte com a família real para a Europa, tendo vivido inicialmente em Lisboa como jornalista correspondente do “The Times” de Londres, onde escreveu o seu primeiro artigo sobre África, intitulado “O Problema da África”[viii]. De seguida, vive por um tempo em França, particularmente em Marselha, onde passa a assumir a sua “alma africana”[ix]. Atravessando o Canal de Suez, faz a sua primeira incursão ao continente, instalando-se em Lourenço Marques, Moçambique, com a intenção de trabalhar na construção dos caminhos de ferro de Luanda a Ambaca[x]. Abandonando esse projeto inicial, parte para a África do Sul, onde destacou os desafios da luta contra o trabalho escravizado em cartas escritas a Rangel Costa, um amigo português.
Na África Oriental ainda estão muito vivos os estigmas do hediondo escravagismo”, escrevia, mas acreditava que “aqui, na África do Sul, o negro já está evoluindo para a Democracia Rural; já tem casa, plantação…[xi].
No entanto, logo se confrontaria com o racismo visceral dos bôeres e dos ingleses e, em cartas a Taunay, elenca uma série de observações sobre as injustiças do sistema colonial inglês que insistia em:
Recusar propriedade territorial ao Africano – Que horror!? O Africano não pode ser proprietário territorial no seu próprio continente africano! Recusar ao africano direitos eleitorais; sujeitá-lo a leis bárbaras; julgá-lo em tribunais ad-hoc; usando e abusando da atroz pena de açoite. Dar curso à brutalidade yankee de recusar Negros e Mulatos nos hotéis e até criar dificuldades em vender-lhes nas lojas de moda e perfumaria[xii].
Numa outra carta a Nabuco e Patrocínio, escreveu: .“Os Republicanos Escravocratas do Transvaal dizem: ‘To make Money is necessary slavery’”[xiii] As cartas de Rebouças têm sido objeto de várias publicações e estudos[xiv]. Muitas dessas cartas, onde analisa a situação social e política do Brasil, a escravatura e a condição das pessoas negras, foram escritas a partir do seu exílio na Europa e particularmente nas suas viagens pelo continente africano. A partir de meados de 1893, Rebouças mudou-se para o Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal, onde passou os últimos anos da sua vida dedicando-se à escrita e à reflexão sobre as suas experiências e desilusões[xv]. De acordo com um dos seus biógrafos Leo Spitzer, as suas cartas desse período revelam um homem profundamente abatido, que via o Brasil como uma “civilização extinta”, incapaz de superar as heranças coloniais que ainda o oprimiam. A partir do Funchal, Rebouças continuou a lutar contra o racismo e a defender a propriedade da terra para os africanos, mas as suas esperanças de ver essas mudanças ocorrerem diminuíam a cada dia. A solidão e a depressão culminaram na destila trágica morte em 9 de maio de 1898, quando, aos 60 anos, se suicidou, atirando-se de um penhasco na ilha[xvi]. Assim relatava a sua morte, o jornal Correio do Funchal:
Esta manhã foi encontrado morto no mar, junto ao “New Hotel-Bed”, o cadáver do subdito brazileiro (sic), nosso hóspede desde há anos, dr. André Rebouças. Este cavalheiro que exerceu nos tempos do Império um elevado cargo público, apresentava desde há tempos signais (sic) de transtorno intelectual e suppõe-se (sic) que elle (sic) próprio se tenha atirado no mar. O infeliz recebera hontém (sic) cartas do Brazil (sic) e, desde então mostrava-se sobremaneira preocupado. Lamentamos esta desgraça e que a alma do infeliz descanse em paz.
Em 1893, numa das suas correspondências[xvii] na ilha madeirense teria escrito :
O horror dos horrores é impedir ao Africano possuir uma nesga de terra na sua própria África. Abolir esta iniqüidade e promover a constituição de núcleos de colonos Africanos com família, choupana e um lote de terras de poucos hectares é a primeira dessas reformas humanitárias”[xviii]
André Rebouças é lembrado como um dos maiores intelectuais e abolicionistas do Brasil, um defensor incansável da justiça social e da igualdade. A vida em Portugal, marcada pelo exílio e pela reflexão profunda sobre as suas lutas e derrotas, é um testemunho do seu compromisso com os ideais que defendia, mesmo quando estes se mostraram impossíveis de alcançar no contexto do final do século XIX.
Notas:
[i] Ver entre outros, Vassilieff, Irina (2022) André Rebouças – Um Negro de destaque do séc. XIX. Lisbon International Press
[ii] André Rebouças: dados biográficos, publicados em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[iii] Treigher, Thamiris (2018) Conheça a história dos Irmãos Rebouças, os primeiros engenheiros negros do Brasil, publicado em: https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-irmaos-reboucas-primeiros-engenheiros-negros-brasil
[iv] Idem
[v] Idem
[vi] André Rebouças: Dados biográficos publicado em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[vii] Porfírio, Jean (2024) “Quem possui a terra, possui o homem”: André Rebouças, opositor do monopólio feudal da terra. Publicado em: https://mst.org.br/2024/03/27/quem-possui-a-terra-possui-o-homem-andre-reboucas-opositor-do-monopolio-feudal-da-terra/
[viii] Mattos, Hebbe (2016) André Rebouças e o Pós-abolição: entre a África e o Brasil (1888-1898), In: Sidney Chalhoub, Ana Flávia Magalhães Pinto. (Org.) Pensadores Negros – Pensadoras Negras. 1ed.Belo Horizonte: EDUFRB v. 1, p. 129-144.
[ix] Idem: p,7
[x][x] Idem: p,8
[xi] Idem: p:9
[xii] Idem: p,13
[xiii] Idem: p,12
[xiv] Ver, entre outros, Rebouças André (2022) Cartas da África: registro de correspondência, 1891-1893. Mattos Hebe (org), Chão editora
[xv] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xvi] Porfírio, Jean (2024), op cit
[xvii] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xviii][xviii] Idem
André Rebouças : Um abolicionista na encruzilhada atlântica

Fonte: MST/Jornal Nova Democracia
Filho de António Pereira Rebouças e de Carolina Pinto Rebouças, André Pinto Rebouças é um dos mais influentes intelectuais e abolicionistas negros do século XIX, cuja vida e pensamento têm sido alvo de amplos estudos[i]. Nascido em janeiro de 1838, na Cachoeira, Bahia, Rebouças é o primogénito de uma família de sete irmãos[ii]. O pai, António Pereira Rebouças, filho de uma ex-escravizada e de um alfaiate português, foi uma ilustre personalidade do Brasil monarquista, tendo sido advogado e conselheiro de Dom Pedro II. Sobre a mãe, Carolina Pinto Rebouças, sabe-se que era filha de um rico comerciante português, André Pinto Silveira.
Formado em Engenharia Militar pela Escola de Aplicação da Praia Vermelha em 1860, André Rebouças é considerado—junto com o irmão António Rebouças, que também seguiu o mesmo percurso académico— uma das primeiras pessoas negras brasileiras a frequentar uma universidade e um dos primeiros engenheiros negros do Brasil[iii]. Os contributos dos irmãos engenheiros estão marcados em importantes infraestruturas do Brasil, como a Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, uma ferrovia de 110 quilómetros que liga a capital paranaense ao porto de Paranaguá, utilizada até hoje é considerada uma das mais impressionantes obras da engenharia brasileira[iv].
Além das ferrovias, os irmãos Rebouças desempenharam um papel fundamental na construção de infraestruturas hidráulicas que resolveram crises de abastecimento de água em várias cidades brasileiras, entre outras construções nacionais que levam a sua assinatura, tendo inclusive desenvolvido um torpedo utilizado na Guerra do Paraguai de 1864[v]. Tal como o pai, André Rebouças foi conselheiro do imperador Dom Pedro II, com quem tinha uma relação de proximidade, tendo-o acompanhado no seu exílio após o golpe político-militar que dissolveu a monarquia.
Um dos maiores e mais interessantes legados de André Rebouças terá sido o envolvimento no movimento abolicionista, particularmente a sua participação na fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e da Sociedade Abolicionista em 1880, junto com Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, dois outros grandes abolicionistas negros[vi].
Crítico do sistema socioeconómico brasileiro, dominado pelos interesses aristocráticos e absolutistas e defensor de uma reforma agrária que passava pela distribuição de terras para as pessoas escravizadas, viu no republicanismo uma manobra dos antigos senhores de escravos e terras para manter os seus privilégios[vii]. Com a vitória dos republicanos, André Rebouças parte com a família real para a Europa, tendo vivido inicialmente em Lisboa como jornalista correspondente do “The Times” de Londres, onde escreveu o seu primeiro artigo sobre África, intitulado “O Problema da África”[viii]. De seguida, vive por um tempo em França, particularmente em Marselha, onde passa a assumir a sua “alma africana”[ix]. Atravessando o Canal de Suez, faz a sua primeira incursão ao continente, instalando-se em Lourenço Marques, Moçambique, com a intenção de trabalhar na construção dos caminhos de ferro de Luanda a Ambaca[x]. Abandonando esse projeto inicial, parte para a África do Sul, onde destacou os desafios da luta contra o trabalho escravizado em cartas escritas a Rangel Costa, um amigo português.
Na África Oriental ainda estão muito vivos os estigmas do hediondo escravagismo”, escrevia, mas acreditava que “aqui, na África do Sul, o negro já está evoluindo para a Democracia Rural; já tem casa, plantação…[xi].
No entanto, logo se confrontaria com o racismo visceral dos bôeres e dos ingleses e, em cartas a Taunay, elenca uma série de observações sobre as injustiças do sistema colonial inglês que insistia em:
Recusar propriedade territorial ao Africano – Que horror!? O Africano não pode ser proprietário territorial no seu próprio continente africano! Recusar ao africano direitos eleitorais; sujeitá-lo a leis bárbaras; julgá-lo em tribunais ad-hoc; usando e abusando da atroz pena de açoite. Dar curso à brutalidade yankee de recusar Negros e Mulatos nos hotéis e até criar dificuldades em vender-lhes nas lojas de moda e perfumaria[xii].
Numa outra carta a Nabuco e Patrocínio, escreveu: .“Os Republicanos Escravocratas do Transvaal dizem: ‘To make Money is necessary slavery’”[xiii] As cartas de Rebouças têm sido objeto de várias publicações e estudos[xiv]. Muitas dessas cartas, onde analisa a situação social e política do Brasil, a escravatura e a condição das pessoas negras, foram escritas a partir do seu exílio na Europa e particularmente nas suas viagens pelo continente africano. A partir de meados de 1893, Rebouças mudou-se para o Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal, onde passou os últimos anos da sua vida dedicando-se à escrita e à reflexão sobre as suas experiências e desilusões[xv]. De acordo com um dos seus biógrafos Leo Spitzer, as suas cartas desse período revelam um homem profundamente abatido, que via o Brasil como uma “civilização extinta”, incapaz de superar as heranças coloniais que ainda o oprimiam. A partir do Funchal, Rebouças continuou a lutar contra o racismo e a defender a propriedade da terra para os africanos, mas as suas esperanças de ver essas mudanças ocorrerem diminuíam a cada dia. A solidão e a depressão culminaram na destila trágica morte em 9 de maio de 1898, quando, aos 60 anos, se suicidou, atirando-se de um penhasco na ilha[xvi]. Assim relatava a sua morte, o jornal Correio do Funchal:
Esta manhã foi encontrado morto no mar, junto ao “New Hotel-Bed”, o cadáver do subdito brazileiro (sic), nosso hóspede desde há anos, dr. André Rebouças. Este cavalheiro que exerceu nos tempos do Império um elevado cargo público, apresentava desde há tempos signais (sic) de transtorno intelectual e suppõe-se (sic) que elle (sic) próprio se tenha atirado no mar. O infeliz recebera hontém (sic) cartas do Brazil (sic) e, desde então mostrava-se sobremaneira preocupado. Lamentamos esta desgraça e que a alma do infeliz descanse em paz.
Em 1893, numa das suas correspondências[xvii] na ilha madeirense teria escrito :
O horror dos horrores é impedir ao Africano possuir uma nesga de terra na sua própria África. Abolir esta iniqüidade e promover a constituição de núcleos de colonos Africanos com família, choupana e um lote de terras de poucos hectares é a primeira dessas reformas humanitárias”[xviii]
André Rebouças é lembrado como um dos maiores intelectuais e abolicionistas do Brasil, um defensor incansável da justiça social e da igualdade. A vida em Portugal, marcada pelo exílio e pela reflexão profunda sobre as suas lutas e derrotas, é um testemunho do seu compromisso com os ideais que defendia, mesmo quando estes se mostraram impossíveis de alcançar no contexto do final do século XIX.
Notas:
[i] Ver entre outros, Vassilieff, Irina (2022) André Rebouças – Um Negro de destaque do séc. XIX. Lisbon International Press
[ii] André Rebouças: dados biográficos, publicados em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[iii] Treigher, Thamiris (2018) Conheça a história dos Irmãos Rebouças, os primeiros engenheiros negros do Brasil, publicado em: https://inbec.com.br/blog/conheca-historia-irmaos-reboucas-primeiros-engenheiros-negros-brasil
[iv] Idem
[v] Idem
[vi] André Rebouças: Dados biográficos publicado em http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1421-andre-reboucas
[vii] Porfírio, Jean (2024) “Quem possui a terra, possui o homem”: André Rebouças, opositor do monopólio feudal da terra. Publicado em: https://mst.org.br/2024/03/27/quem-possui-a-terra-possui-o-homem-andre-reboucas-opositor-do-monopolio-feudal-da-terra/
[viii] Mattos, Hebbe (2016) André Rebouças e o Pós-abolição: entre a África e o Brasil (1888-1898), In: Sidney Chalhoub, Ana Flávia Magalhães Pinto. (Org.) Pensadores Negros – Pensadoras Negras. 1ed.Belo Horizonte: EDUFRB v. 1, p. 129-144.
[ix] Idem: p,7
[x][x] Idem: p,8
[xi] Idem: p:9
[xii] Idem: p,13
[xiii] Idem: p,12
[xiv] Ver, entre outros, Rebouças André (2022) Cartas da África: registro de correspondência, 1891-1893. Mattos Hebe (org), Chão editora
[xv] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xvi] Porfírio, Jean (2024), op cit
[xvii] Mattos, Hebbe (2016) op cit
[xviii][xviii] Idem
Nós não viemos do vazio
Idade Antiga
IDADE ANTIGA
3000 A.C. – c. 1800 A.C. | Calcolítico
Rede de povoados campaniformes: pequenas unidades de povoamento, de raiz familiar. Necessidade de visualização do espaço a grande distância (controle) e algum tipo de fortificação.
2000 a.C. até c. 800 a.C. | Idade do Bronze
Centralização de antigos povoados: emergência de centros de poder político-económico, em altura, dominantes sobre a paisagem e sobre outros núcleos de povoamento. Elites indígenas que serão as interlocutoras com os fenícios povo africano do norte de áfrica (chegados provavelmente ainda no séc. IX a.C., a julgar pelas datações em Almaraz).
1070 A.C. | Talinka é erguida
Bratrikus entrou pelo sul da península ibérica e ergue a sua capital em talikha, perto da sevilha atual
878 A.C. | Fenícios
Povos Fenícios de origens norte africanas anteriores ao colonialismo árabe, fundaram Cartago. Nas próximas centenas de anos vagas de comércio fenício e fenício ocidental (cartagineses) chegam a Olisipo.
750 a.C. a 138 a.C. | Olisipo
700 a 646 A.C. | Presença do Faraó Taharka na Península Ibérica
400 A.C
218 a.C. até 201 a.C. | Guerras Púnicas
II Guerras Púnicas. Guerras Púnicas – Guerra de Roma contra os povos africanos do norte de África – Cartagineses. Presença na Ibéria de Hannibal o africano que pediu ajuda aos povos locais para lutar contra Roma com os seus elefantes couraçados.
200 A.C.
100
188/9-199 | Papado de Víctor I
O Papa Santo Víctor – como era também conhecido – foi o primeiro Papa nascido no continente africano de que há memória. Foi bispo de Roma e trabalhou na cidade de Leptis Magna e na região de Tripolitanea. O seu episcopado foi marcado por disputas no seio da igreja ligadas à homogeneização da data de celebração da Páscoa e ao início da utilização do latim, em substituição do grego, usado até então por outros papas. Enquanto vários historiadores argumentam que se tratava de um homem negro de origem Amazigh, Papa Victor I é representado essencialmente como homem branco. O ano estimado da sua morte é 199.

Referências
- ecWiki Enciclopédia Católica Online (s.d.). Papa San Víctor I. [https://ec.aciprensa.com/wiki/Papa_San_V%C3%ADctor_I]
- Kirsch, J. P. (1912). Pope St. Victor I, The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company [http://www.newadvent.org/cathen/15408a.htm].
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/]
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
200
300
311-314 | Papado de Miltiades
Santo Miltiades – o Africano – foi o trigésimo-segundo papa e Bispo de Roma. Nascido em Roma com ascendência Amazigh, eleito a 2 de Junho de 311 d.C. Foi durante o seu pontificado que, através do Édito de Milão que foi concedida ao Cristianismo estatuto legal no Império Romano

Referências
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/]
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
- Benedicte, V.S. (2022) Three African Popes.
409 | Invasão Bárbara
Invasão do Império Romano pelos povos ditos bárbaros. Vândalos, alanos e suevos dirigem-se para a Península Ibérica.
468 | Visigodos
476 | Fim do Império Romano do Ocidente
492-496 | Papado de Gelasius I
Papa Gelasius I nasceu em 410 d.C na província romana do Norte de África, dizendo que “nasceu romano em África”. Foi bispo de Roma de 1 de Março de 492 até à sua morte, a 19 Novembro de 496 – o terceiro e último Papa de origem Amazigh da história da igreja católica. Ortodoxo, trabalhou durante vários anos como assistente do seu antecessor e ficou conhecido como o escritor mais prolífico entre os líderes da igreja redigindo mais de 100 tratados e cartas e definindo a autoridade do papado por cinco séculos após a sua morte. Muitos dos seus escritos podem ser encontrados na biblioteca do Vaticano, em Roma.

Referências
- Lista de Papas (s.d.). Lista de Papas. [https://listadepapas.com/].
- Sertima, I. V. (1985). African Presence in Early Europe, Journal of African Civilizations.
- Benedicte, V.S. (2022) Three African Popes.
500
600
711 | Início da presença muçulmana na Península Ibérica.
Dinastias mais africanizadas eram as dos Almorávida (1086) e Almóada (1145), no meio entre as duas, assim como antes e após elas, houve reinos independentes e fracionados, as«taifas», até aos últimos dias de reinos de muçulmanos do al-Andalus em 1492;
Quer durante, quer fora dos governos «mais africanizados», os árabes (principalmente iemenitas, egípcios, sírios) ficaram maioritários, do ponto de vista numérico, se comparados aos próprios amazigh (berberes); mas há presença de berberes já na Península (nomeadamente no ocidente) já antes de haver al-Andalus (antes de 711);
Esta não foi uma invasão (ou uma ocupação), nem propriamente um convite, mas uma conquista relativamente pouco beligerante e por vezes favorecida pelas elites, às quais em alguns casos foi deixado um certo poder local. Por isso foi rápida, tendo em conta que os visigodos estavam em grande crise (económica, cultural, etc.) e os muçulmanos estavam na madrugada do apogeu da sua civilização (logo levavam consigo conhecimento, novas instituições, maiores possibilidade de riqueza, etc.); além disso, a própria instituição islâmica do dhimmah (pacto de proteção e convivência), permitia a pacífica convivência entre judeus, cristãos e muçulmanos, facilitou o espalhar-se do poder islâmico, a migração continuou ao longo de décadas.
714 | Conquista muçulmana de Olisipona
Idade Média
Idade Média
Finais do século XI e meados do século XII
800
900
1000
1100
1147 | D. Afonso Henriques conquista Al-Ushbuna
1170 | Foral aos mouros forros de Lisboa, por D. Afonso Henriques
1200
1252-1284 | Primeiras referências a população negra na Península Ibérica
De acordo com a hitoriadora Isabel Castro Henriques as primeiras referências a populações negras na Península Ibérica, em particular na Galiza estão “registadas numa memória escrita e iconográfica, intitula Cantidas de Santa Maria, a obra madada organizar por Afonso X, de Leão e Castela, entre 1252 e 1284, que regista a presença de uma mulher africana “negra como carvão”, “donzela feia”, “velosa como cão”, “velha de má côr”, mal cheirosa como “sison e alermã” (ave e planta), retratada com uma violência somática que vai perdurar durante séculos no vasto mundo ocidental” (Henriques, 2020: 59).
Referências
CASTRO HENRIQUES, I. e DA SILVA, J.M. (2020). Os “Pretos do Sado”: História e memória de uma comunidade alentejana de origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Edições Colibri.
1300
1348 - Peste Negra
1391 | O movimento antijudaico em Espanha
1400
1415 | Início da expansão marítima portuguesa e das guerras de conquista
1441 | Chegada a Lagos do primeiro grupo de pessoas Amazigh escravizadas
De acordo com o historiador Vitorino Magalhães Godinho, chegam a Portugal, em 1441, os primeiros 10 a 18 “cativos” azenegues “apresados” no litoral do Saara, raptados por Antão Gonçalves e Nuno Tristão, numa emboscada a um acampamento em Porto de Cavaleiro (Rio do Ouro), dos quais se obteriam as primeiras informações dadas sobre o sertão saariano, facilitando a que na viagem seguinte, em 1443, se juntassem a estes, mais 29 pessoas. Godinho refere ainda, que segundo Eanes Gomes Zurara, Tristão “era movido pelo desejo de filhar cativos em número tal que o infante começasse a tirar proveito das despesas feitas nas viagens” (1983: 155).
Referências
- Godinho, V.M. (1983). Os Descobrimentos e a Economia Mundial, Volume IV. Lisboa: Editorial Presença.
1444 | Chegada a Lagos do primeiro grande grupo de pessoas negras escravizadas
As primeiras razias à costa africana que resultaram no aprisionamento de pessoas africanas e negras começaram na década de 1440’s que, de acordo com o cronista Gomes Eanes Zurara trouxeram a Lagos, na costa algarvia, o primeiro contingente de 235 mulheres, crianças e homens africanos raptados e aprisionados na costa da Mauritânia, a 8 de agosto de 1444, testemunhada pela curiosidade de muitas pessoas que ali se juntaram (Henriques e Silva, 2020:61). É este evento que marca, em grande medida, o início do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. De facto, estima-se que entre meados de 1400s e 1761, tenham sido trazidos para Portugal cerca de 400.000 homens, mulheres e crianças (Lahon, 2004: 73-74). Entre os séculos XV e XIX estima-se que Portugal tenha sido responsável, em conjunto com o Brasil (independente desde 1822), por cerca de metade dos 12M de pessoas escravizadas no atlântico.
Referências
- Castro Henriques, I. & da Silva, J.M. (2020). Os “Pretos do Sado”: História e memória de uma comunidade alentejana de origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Edições Colibri.
- Lahon, D. (2004). O escravo africano na vida económica e social portuguesa do Antigo Regime, Africana Studia7, 73-100.
- Voyages Database (2009). Voyages: The Trans-Atlantic Slave Trade Database, http://www.slavevoyages.org.
1444 | Instalação das primeiras pessoas escravizadas em Lisboa
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1452 | Bula Papal "Dum Diversas"
A 18 de Junho de 1452, o Papa Nicolau V emitiu a Bula “Dum Diversas” que concedia à cora portuguesa o direito de capturar territórios e reduzir à condição de “escravos perpétuos” as populações não-cristãs da África Ocidental.
Referências
- Papa Nicolau V (1452). Bula “Dum Diversas”, 18 de junho.
Idade Contemporânea
Idade Contemporânea
1791 | INÍCIO DA REVOLUÇÃO DE SÃO DOMINGO (HAITI)
A Idade Contemporânea é entendida como o período compreendido entre a Revolução Francesa (1789-1799) e a e atualidade. Contudo, é importante sublinhar que esta cronologia eurocêntrica da história silencia a Revolução de São Domingo (hoje, Haiti), onde, entre 1791 e 1803, os jacobinos negros se insurgiram vitoriosamente contra a escravatura e o colonialismo do Império Francês, consolidando-se como a Primeira República Negra da história. Sublinhe-se o papel central da resistência cultural, nomeadamente religiosa, já que é na noite de 22 de Agosto, após o Bwa Kayiman – cerimónia de voodoo na qual a insurreição foi sendo arquitetada – que começa a revolução. Tanto resistência como a correspondente repressão ecoariam um pouco por todo o mundo.
Referências
- Alves, A.R. (2019). Um silêncio ensurdecedor: a resistência como memória impossível | Silence is a sound: resistance as an (im)possible memory. In B. S. Martins, A. C. Santos & S. Lopes (org.), As sociedades contemporâneas e os direitos humanos | Contemporary societies and human rights. Brasil: Editus
- James, C.L.R. (1989). The Black Jacobins: Toussaint L’Ouverture and the San Domingo
revolution. New York: Vintage Books. - Small, S. & Walvin, J. (2012). African Resistance to Enslavement. In M. Schalkwijk & S. Small (eds.), New Perspectives on slavery and colonialism. Amesterdam: Amrit/Ninsee, 41-49.
1821, 16 de fevereiro | Foi apresentado um projeto de lei autorizando judeus
Logo em 16 de fevereiro de 1821 foi apresentado um projeto de lei autorizando judeus (por vezes chamados de judeus negros) e mouros a regressar a Portugal, com todos os privilégios e direitos que a legislação medieval outrora lhes garantira. Portugal reabria-se assim ao regresso da comunidade judaica. Regresso já iniciado em finais do século XVIII. Provenientes de Gibraltar, de Marrocos e de outras regiões algumas famílias estabeleceram residência no Continente português e nas Ilhas. Várias firmas comerciais iniciaram atividade. Até 1851, centenas de indivíduos justificaram a existência de sinagogas e cemitérios próprios.
1822 | INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
1837-1889 | Roberto Duarte Silva
Duarte Silva foi aprendiz de farmácia, migrou para Lisboa para trabalhar na Farmácia Azevedo e estudou na Escola de Farmácia da Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Viveu alguns anos em Macau e Hong Kong onde fundou a sua farmácia. Estudou no laboratório de Charles Adolphe Wurtz e conseguiu a síntese total da glicerina no laboratório de Charles Friedel. Em 1863 foi viver para Paris, onde ensinou química analítica em várias instituições. Em 1885 foi galardoado pela Academia Francesa de Ciências e tornou-se Presidente da Sociedade Química de França, em 1887. Há uma rua com o seu nome em São Domingos de Benfica, Lisboa.
Referências
- Cape Verde History Unearthed (2014). “The Chemist Roberto Duarte Silva”, 26 de Dezembro. [ https://capeverdeanhistoryunearthed.com/2014/12/26/the-chemist-roberto-duarte-silva/]
- Cape Verdean Museum (2024). Roberto Duarte Silva, Facebook, 25 de Fevereiro [https://www.facebook.com/capeverdeanmuseum/posts/916995466881859]
1839 | HERCULANO MERCÊS É INDICADO PARA PROFESSOR DE MÚSICA DO CONSERVATÓRIO
Não se sabe, com exatidão, quando terá nascido Herculano Firmino das Mercês, músico e “um dos mais brilhantes” professores de dança de salão da década de 1830, na cidade de Lisboa. Embora não possa atestar-se até que idade viveu, de acordo com Aristóteles Kandimba (2021). Herculano das Mercês terá sido indicado para professor do Conservatório Nacional de Lisboa, em 1839.

Referências
- Kandimba, A. (2021). A Balada de Herculano Mercês: Uma obra sobre um dos maiores mestres das danças de salão da década de 1830 em Lisboa. Lisboa: Edição de Autor.
1857 | NASCIMENTO DE CARLOS JOAQUIM TAVARES
Carlos Joaquim Tavares foi um médico angolano, que se deslocou para estudar, primeiro na Escola Politécnica de Lisboa e, em 1882, na Escola Médico Cirúrgica, tendo-se então destacado como brilhante aluno. De acordo com Jorge Almeida (2020), Carlos Tavares foi nomeado médico da Real Câmara, em 1894 – por intervenção de Carlos Lobo d’Ávila, ministro, seu amigo e admirador – tornando-se um dos médicos do Rei D. Carlos. Foi ainda o médico escolhido pelo Príncipe Luís Filipe quando este visitou os territórios africanos ocupados, em 1907, parte da Comissão Revisora da Farmacopeia, Vice-Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e Diretor da Sociedade de Banhos de São Paulo. Morreu em Lisboa, em 1912.

Referências
- A Capital (1913). Falecimento – Dr. Carlos Joaquim Tavares, Ano 3, Número 921, 23 de fevereiro.
- A Voz D’África (1913). Dr. Carlos Joaquim Tavares, 1 de março.
- Almeida, J.F. (2020). O Médico Negro do Rei, Buala, 2 de abril. [https://www.buala.org/pt/a-ler/o-medico-negro-do-rei]
- Barata, J. (2008). Uma Nosografia de D. Carlos I no centenário do regicídio, Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna 15 (2), 141-145.
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- Camacho, B. (1928), Gente Vária. Lisboa: Guimarães & Cia.
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- Ramalho, M.M. (2018). Thomaz de Mello Breyner – Relatos de uma Época do Final da Monarquia ao Estado Novo. Lisboa: Imprensa Nacional.
- Silva, J. Martins (2002a). Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 2º parte e conclusão, Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, Série III, Volume 7, número 5, 237-249.
- Silva, J. Martins (2002b). Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 2º parte e conclusão”, Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, Série III, Volume 7, Número 6, 305-314.
- Tavares, Carlos (1899). Dr. Manuel Bento de Souza, Brasil-Portugal, Número 8, 16 de maio.
1859 | NASCIMENTO DE FERNANDA DO VALE (ANDREZA DO NASCIMENTO)
Andreza do Nascimento (1859–1927), Fernanda do Vale (ou mesmo, Preta Fernanda) ficou eternizada, sendo sua a imagem aos pés da estátua do Marquês de Sá da Bandeira, em Lisboa. Foi popularizada na boémia lisboeta ora no circuito da prostituição, ora entretendo audiência vestida de toureira.

Referências
- Cardoso, M.D. (2017). Do apartheid envergonhado à “Preta Fernanda”: o rasto de África nas ruas de Lisboa, Público, 25 de março.
- Cardoso, P. (s.d.). Biografia ou sátira racista? Viagem pelas recordações da Preta Fernanda, Afrolink [https://afrolink.pt/biografia-ou-satira-racista-viagem-pelas-recordacoes-da-preta-fernanda/]
- Expresso das Ilhas (2017). Ar livre: A preta Fernanda no coração do império, Expresso das Ilhas, 20 outubro.[https://expressodasilhas.cv/opiniao/2017/10/20/ar-livre-a-preta-fernanda-no-coracao-do-imperio/55003#:~:text=Fernanda%20do%20Vale%20inspirou%20uma%20biografia%20romanceada%20sobre,din%C3%A2mica%20da%20prostitui%C3%A7%C3%A3o%20colonial%20no%20cora%C3%A7%C3%A3o%20do%20imp%C3%A9rio]
- Expresso das Ilhas (2017). Debaixo da nossa Pele IV: Retrato de Uma Senhora, Expresso das Ilhas, 8 agosto 2017. [https://expressodasilhas.cv/opiniao/2017/08/08/debaixo-da-nossa-pele-iv-retrato-de-uma-senhora/54219]
- Fernandes, C. (2021). Pode o/a subalternizado/a recordar? – uma análise das recordações de Fernanda do Vale. Revista De Comunicação e Linguagens [https://rcl.fcsh.unl.pt/index.php/rcl/article/view/117]
- Guinote, P. (2002). The Old Bohemian Lisbon (c. 1870 – c. 1920): Prostitutes, Criminals and Bohemians, Portuguese Studies18, 71-95.
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- Vale, F., Totta, A. & Machado, F. (1912). Recordações d’uma colonial (memorias da preta Fernanda). Wentworth Press.
1864 | NASCIMENTO DO POETA CAETANO DA COSTA ALEGRE
Caetano da Costa Alegre é considerado o primeiro poeta africano a escrever, em português, sobre o tema da negritude. Nascido em São Tomé e Príncipe, em 1864, Alegre mudou-se com a família para Portugal em 1882, onde iniciou os seus estudos na Faculdade de Medicina de Lisboa, vindo a falecer, precocemente, em Alcobaça, em 1890. Contudo, a sua poesia viria a ser compilada e publicada postumamente no livro Versos (1916), pelo seu amigo, o jornalista Artur da Cruz Magalhães. Os seus restos mortais foram depositados no Cemitério dos Prazeres, onde já jazia Gonçalves Crespo (1846-1883), também poeta negro, e os da sua mulher Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). Contudo, só os restos dos dois últimos foram transladados para o jazigo dos escritores.

Referências
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- Bianchi, B. (1976). Caetano da Costa Alegre: Poetic Resolution of a Color Dichotomy. Lisboa: s.n.
- Costa Alegre, A. (1916). Versos. Lisboa: Livraria Ferin.
- Rodrigues, L (1969). O Livro de Costa Alegre: o poeta de São Tomé e Príncipe. Lisboa : Agência-Geral do Ultramar.
- Cardoso, J.M. (2011). Tuberculose mata Costa Alegre”. Tela Non (in portuguese). 30 de abril.
- A. (2011). “A imprensa: revista científica, literária e artística (1885-1891)”,
- A. (2011). “A Leitura: magazine litterario (1894-1896)., digital copy at Hemeroteca Digital
- A. (2011). “Portuguese Colonial Literature”. Alguns poemas de Caetano da Costa Alegre, [http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/s_tome_princepe/caetano_de_costa.html].
- Blogdaruanove (2010). Literatura Colonial Portuguesa, 27 de outubro, [https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7316.html].
1867 | NASCIMENTO DE JOSÉ DE MAGALHÃES
José de Magalhães nasceu em Angola, em 1867, tendo viajado, com a sua família, para Portugal, onde se tornou médico e, mais tarde, professor e diretor do Instituto de Medicina Tropical. Contudo, a sua atividade estendeu-se também à esfera da política, tendo fundado a Junta de Defesa dos Direitos de África, a Liga Africana e participado no Congresso Pan-Africano de Lisboa, onde este o renomado intelectual estado-unidense W. E. B. Du Bois. José de Magalhães colaborou igualmente com um conjunto de periódicos e revistas tendo sido eleito à Assembleia da República, em 1922, como representante de São Tomé – tornando-se, assim, o segundo deputado afrodescendente da história de Portugal. Faleceu, em Lisboa, em 1959.

Referências
- Varela, P. (2020). Os dois deputados negros da Primeira República, Afrolink. [https://afrolink.pt/os-dois-deputados-negros-da-primeira-republica-por-pedro-varela/]
1882 | NASCIMENTO DE GEORGINA DE CARVALHO RIBAS
Georgina Ribas, nasceu em Angola, filha de um comerciante brasileiro e de mãe angolana, descendente do Barão de Cabinda – Manuel José Puna. Chegou a Portugal com 3 anos e diplomou-se no Conservatório Nacional de Lisboa. Casou-se com Tomaz de Sousa Ribas e dessa relação nasceram três filhos: Maria Emília Ribas – escreveu um conto infantil “O Preto” –, Piedade de Carvalho Ribas e Tomaz Ribas, homem do teatro e da dança, professor no Conservatório. Além de pianista, Georgina Ribas foi parte da direção do Partido Nacional Africano e secretária do Conselho da Liga das Mulheres Africanas (Roldão, Pereira e Varela, 2023: 119-120).

Referências
- Roldão, C. (2019). Feminismo negro em Portugal: falta contar-nos, Público, 18 de janeiro. [https://www.publico.pt/2019/01/18/culturaipsilon/noticia/feminismo-negro-portugal-falta-contarnos-1857501.
- Roldão, C; Pereira, J.A. & Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
- RTP (1980), O que eu gostaria de ter sido – Entrevista a Tomaz Ribas, RTP, 3 de março [https://arquivos.rtp.pt/programas/o-que-eu-gostaria-de-ter-sido/#:~:text=O%20que%20eu%20Gostaria%20de%20Ter%20Sido%3F%20S%C3%A9rie,sido%20profissionalmente%20e%20o%20que%20fazem%20na%20realidade.]
1883 | NASCIMENTO DE DOMINGAS LAZARY DO AMARAL
Domingas Lazary do Amaral, nasceu em Angola, em 1883, membro da denominada ‘elite crioula’, como eram apelidados os descendentes de portugueses brancos emigrados nas colónias. Segundo Sílvia Espírito Santo (2019), por mérito, Domingas Lazary ganha uma bolsa para estudar em Portugal onde se inicia na loja maçónica ‘Humanidade do Direito Humano’ sob o nome Heloísa d’ Abelardo, regressando depois a Luanda onde casa com Sebastião José do Amaral e funda o Colégio Infantil de Luanda e adere à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1908. De facto, Domingas Lazary do Amaral, “partilhava com muitos angolanos a convicção de que o novo regime, a fazer fé no seu ideário, se iria opor à ‘discriminação baseada na cor da pele, filiação ou lugar de nascimento’ (Santo, 2019: 42). Depois de pontes áreas intensas entre Lisboa e Luanda, Domingas Lazary do Amaral fixa-se em Lisboa, em 1918, “onde passa a dar aulas e a escrever artigos para a Alma Feminina, boletim oficial no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP)” (Ibidem). Pedagoga, Domingas Lazary do Amaral, advogará pelo direito das pessoas indígenas à educação profissionalizante, assim como pela autonomia de Angola. Contudo “a sua visão do colonialismo como um sistema que promovia o desenvolvimento dos indígenas não terá destoado muito da visão das elites feministas do seu tempo” (Idem: 43). Uma década volvida, regressa a Luanda, em 1929, e afasta-se da vida pública. Não obstante volte a Lisboa para acompanhar a sobrinha Maria Piedade Lazary de Matos, após o falecimento desta, Domingas passa algumas dificuldades financeiras e acaba por morrer a 4 de junho de 1954.

Referência
- Ferreira, E.M. (2015). Cidadania em Angola: A saga de Domingas Lazary do Amaral, Lisboa, Quod.
- Santo, S.E. (2019). Domingas Lazary do Amaral: ‘Uma querelada pela liberdade de imprensa’, Ex aequo 39, 39-53.
1884 | Conferência de Berlim
Conferência de Berlim e partilha da África pelas potências coloniais europeias. Conferência inicialmente idealizada por Portugal no seguimento da proposta do mapa cor-de-rosa e da anexação dos territórios pelos ingleses entre Angola e Moçambique.
1869 | Abolição da Escravatura: um longo caminho
19 de Setembro 1761 | Proibição de Introdução de Novas Pessoas Escravizadas na Metrópole
25 de Maio 1773 | Lei do Ventre Livre
10 de Dezembro 1836 | Proibição do Tráfico de Pessoas Escravizadas em todos os Domínios do Império Português
27 de Fevereiro 1869 | Abolição da Escravatura em todos os Domínios do Império Portugês

Referências
- Alexandre, V. (1991). Portugal e a abolição do tráfico de escravos (1834-51), Análise SocialXXVI (111), p. 293-333.
- Cunha, M. S. (coord.) (2021). Resistências, Insubmissão e Revolta no Império Português. Alfragide: Casa das Letras.
- Fonseca, J. (2006). A raia luso-castelhana, espaço de cativeiro e de luta pela liberdade (Séculos XVI-XVII), Revista de Estudios Extremeños LXII (II), 725-738.
- Lahon, D. (1999). O Negro no Coração do Império. Uma memória a resgatar – Séculos XV a XIX. Lisboa: Ministério da Educação. Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural.
- Marques, J.P. (2008). Sá da Bandeira e o Fim da Escravidão: Vitória da Moral, Desforra do Interesse. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.
- Marques, J.P. (2004). Portugal e o fim da escravidão: uma reforma em contraciclo,Africana Studia 7, pp. 137-161.
- Marques, J.P. (2001). Uma cosmética demorada: as cortes perante o problema da escravidão (1836-1875),Análise Social XXXVI (158-159), pp. 209-247.
- Marques, J.P. (1999). Os sons do silêncio: o Portugal de Oitocentos e a abolição do tráfico de escravos. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.
- Mendes, A. A. (2016). “Escravidão e raça em Portugal: uma experiência de longa duração”. In Myriam Cottias et Hebe Mattos (dir.), ESCRAVIDÃO E SUBJETIVIDADES no Atlântico luso-brasileiro e francês (Séculos xvii-xx). Marselha: OpenEdition Press.
- Ministério da Marinha (1889). Memória acerca da Extinção da Escravidão e do tráfico de escravatura no território português. Lisboa: Ministério da Marinha.
1896 | Chegada de Gungunhana a Lisboa
A 13 de março de 1986 chega a Lisboa Gungunhana – o “Rei de Gaza” – capturado, em Moçambique, por Mouzinho de Albuquerque, a 28 de dezembro de 1895, acompanhado por familiares e conterrâneos. Gungunhana foi objeto de imensa curiosidade por parte da população e dos media aquando da sua passagem e permanência em Lisboa, na prisão de Monsanto, até viajar para a ilha Terceira onde morreria em 1906. Contudo, a “memória dos africanos perpetuou-se na Terceira, através da descendência de Zixaxa”, um dos moçambicanos capturados e mantidos em cativeiro, mais tarde assimilidos (Enes, 2018: 24).

CRU000195 | Chegada de Gungunhana ao Arsenal de Marinha [Lisboa, 1896-03-13]

In Enes, 2018

In Enes, 2018
Referências
- Arquivo Fotográfico de Lisboa.
- Enes, C. (2018). Gungunhana nos Açores, Álbum Terceirense. Volume IV. 11-26. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura.
1899 | Nascimento de Mário Domingues

Referências
- Domingues, M. (2023). A Liberdade não se concede, conquista-se. Que a conquistem os negros! Antologia de Textos da Batalha. Lisboa: Falas Afrikanas, Letra Livre e A Batalha.
- Domingues, M. (2018). Má Raça. Comédia em 3 Atos. Lisboa: Falas Afrikanas.
- Domingues, M. (1960). Menino entre Gigantes. Lisboa: Prelo.
- Domingues, M. (1929). O Preto do Charleston. Lisboa: Guimarães & Ca..
- GARCIA, J.L. (org.) (2022). A afirmação negra e a questão colonial. Textos, 1919-192 Lisboa: Tinta da China.
- Garcia, J.L. (2017). The First Stirrings of Anti-Colonial Discourse in the Portuguese Press. In J. L. Garcia, J.L. et al. (eds.), Media and Portuguese Empire. London: Palgrave Macmillan, 125-143.
- Pereira, P. (2023). Mário Domingues, Ferreira de Castro e a “linha de cor” nas letras portuguesas, Revista Brasileira de História 43 (93), 105-129.
- Roldão, C; Pereira, J.A. & Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
1890 a 1914 – Emigração portuguesa para África
A emigração portuguesa para África rondou os 2000 emigrantes anuais e raramente chegou a representar 6% do total. Nessa migração para áfrica e américa do sul estavam portugueses de origens africanas nascidos em portugal.
A grande maioria dos emigrantes – 59% dos homens e 87% das mulheres era analfabeta. Procuravam melhores condições de vida e amealhar dinheiro para constituir família; filhos de viúvas ou enjeitados, em situações desesperadas conseguiam que um padrinho lhes pagasse a passagem para o Brasil; agricultores arruinados procuravam fugir à proletarização; rapazes pobres, aspirantes a noivas de condição superior, homens ambiciosos. O fascínio do prestígio dos poucos brasileiros que regressavam ricos, compravam quintas, construíam palacetes, adquiriam comendas e distribuíam patacas pelos parentes pobres, levava os portugueses a emigrar!
Muitos negros encontravam-se em situação de semiescravatura, na primeira metade do século. Viviam sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal, cidades onde se empregavam em serviços domésticos. O seu número diminuía e eram substituidos por mão de obra galega m algumas regiões como o bairro do mokambo na cidade de lisboa. Serviam também como caiadores ambulantes de casas ou como picadores de touros nas arenas.
1900's | A Lisboa Africana e Negra na Viragem do Século
1902 | Nascimento do Pugilista José Soares Santa “Camarão”

Segundo a historiadora Cláudia Castelo, “os estudos disponíveis […] quase não abordam o período posterior à abolição da escravatura ou fazem-no de forma insuficiente. As dinâmicas africanas no Portugal novecentista, quando aparecem, são quase sempre reduzidas às decorrentes do movimento migratório da descolonização, como se africanos e afrodescendentes tivessem estado ausentes do espaço europeu, reemergindo apenas após 1974/75 e sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, período de crescimento e diversificação da imigração africana em Portugal (2022: 132).
Na senda do repto de Castelo, podemos encontrar no Arquivo Fotográfico de Lisboa, um conjunto de fotografias que atestam esta presença na capital do país, na viragem do século XX, em conjunto com outras histórias disperas em livros, artigos e notícias:

O Alfarrabista Pires [Rua Santa Maria Maior, Lisboa, 1907]

Gustavo Couto, Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa [Largo, Santa Maria Maior, Lisboa, 1907]

Crianças e aguadeiros no chafariz d’ El Rei [Lisboa, 1907-03]
1904 | Primeiro Grémio de Africanos em Lisbo
Referências
- Arquivo Fotográfico de Lisboa.
- Castelo, C. (2022). Africans and Afrodescendants in the Portuguese metropole (twentieth century): a return to the “imperial archive”. Portuguese Literary and Cultural Studies34-35 (2022): 131-150.
- Roldão, C., Pereira, J. e Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
- Maçarico, L.F. (2003). Com o Mundo nos Punhos: Elementos para uma Biografia de José Santa Camarão. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa
1910's | A Lisboa Africana e Negra: a política como quotidiano
1910 | Comissão Permanente dos Filhos de São Tomé e Príncipe
1911 | Associação dos Estudantes Negros
1911 | Lançamento do Jornal O Negro

1912 | Junta de Defesa dos Direitos de África
1912-1913 (e depois 1927-1930) | Jornal A Voz de África
1913 (e depois 1931-1932) | Jornal Tribuna d’África
1914-15 | Jornal O Eco D’África
1915 | Jornal Portugal Novo
1916-1918 | Jornal A Nova Patria
1918 | Eleição de João De Castro – Primeiro Deputado Negro em Portugal
João Monteiro de Castro nasceu em 1887, no seio de família santomense de classe média, socialista e pan-africanista comprometida com a defesa dos direitos das pessoas “indígenas” no espaço, então, colonial. Nomeadamente os seus irmãos, Heliodoro e de Arthur Monteiro de Castro, foram membros das primeiras associações de estudantes africanos em Portugal, tais como a Associação de Estudantes Negros e a Liga Académica Internacional dos Negros. No seu encalce, depois da mudança para Portugal, onde viveu em Coimbra e Lisboa, chegando a ingressar na Universidade de Direito de Coimbra, João de Castro toma parte de um conjunto de iniciativas pan-africanistas, como a Junta de Defesa dos Direitos de África, o Partido Nacional Africano ou o Movimento Nacionalista Africano; foi também redator e dirigente de várias publicações de relevo. como a Voz d’África, a Tribuna d’África e África. E, em 1918, é eleito como o primeiro deputado afrodescendente na Assembleia da República Portuguesa, em representação de São Tomé e Príncipe, pelo Partido Socialista. Vira a falecer em 1955.

1919 | Fundação do Jornal A Batalha

Referências
- Garvey, M. (5 de dezembro de 1995). The Marcus Garvey and Universal Negro Improvement Association Papers, Vol. IX: Africa for the Africans June 1921-December 1922(em inglês). [S.l.]: University of California Press
- Pereira, J.A. & Varela, P. (2020). As Origens do Movimento Negro em Portugal (1911-1933): uma geração pan-africanista e antirracista, Revista História 179. [https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/159242]
- Roldão, C; Pereira, J.A. & Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
1920´s
1920 (a 1924) | Liga Africana
1921 | Jornal O Protesto Indígena
1921 | Nascimento de Francisco José Tenreiro
Francisco José Tenreiro nasce e escrever sob as consequências do jugo colonial em São Tomé e Príncipe, em particular sobre a exploração laboral sob o regime do contrato que marcaram definitivamente a história do país. Contudo, filho de pai português e mãe angolana, Francisco passou grande parte da sua vida em Lisboa, onde se doutorou em geografia, foi professor no hoje ISCSP, Fundador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Lisboa e deputado na Assembleia, em representação de São Tomé e Príncipe.
Entre as suas obras, destacam-se os dois volumes de poemas, Ilha de nome santo (1942) e Coração em África (1964), bem como Panorâmica da literatura norte-americana (1945) e a antologia (com Mário Andrade), Poesia negra de expressão portuguesa (1958).

1921-1923 e 1924 | Correio de África
1923 | Congresso Pan-Africano Lisboa

1929 | Liga das Mulheres Africanas
1929 | Grémio dos Africanos
1929 | Ké-Aflikana
Referências
- Du Bois, W.E.B. (1924), “Pan Africa in Portugal”. The Crisis, vol. 27, n. 4, February, 170.
- Mata, I. (org.) (2010). Francisco José Tenreiro: As Múltiplas Faces de um Intelectual. Lisboa: Colibri.
- Roldão, C; Pereira, J.A. & Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
1930's
1930-1932 | Jornal A Mocidade Africana
1931 (e 1932-1933) | Jornal Africa
1931 (a 1933) |Jornal Movimento Nacionalista Africano
1932 | Jornal Africa Magazzine
1932 | Jornal Hoje
Referências
- Roldão, C; Pereira, J.A. & Varela, P. (2023). Tribuna Negra: Origens do Movimento Negro em Portugal 1911-1933. Lisboa: Tinta da China.
1939 a 1945 – II Guerra Mundial
Lisboa foi porta de saída da Europa em guerra. Aqui se estabeleceram pessoas de muitas nacionalidades como britânicos ou alemães e procuraram obter visto de viagem muitos judeus.
1940's
1940 | Publicação do Livro Mouros, Judeus e Negros na Historia de Portugal, de J. A. Pires de Lima
1940 | Publicação da Comunicação apresentada no Congresso Nacional de Ciências da População, “A Influência dos Mouros, Judeus e Negros na Etnografia Portuguesa”
1942 | NASCIMENTO DE EUSÉBIO DA SILVA FERREIRA
Eusébio da Silva Ferreira, conhecido como ‘Pantera Negra’ ou ‘Rei’ é um dos mais renomados jogadores da história do futebol português, tendo feito grande parte do seu percurso no Sport Lisboa e Benfica. Luso-moçambicano, nasceu em 1942, e seria considerado, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol, como um dos melhores futebolistas de sempre. Por tudo isto, os seus restos mortais foram transladados para o Panteão Nacional, em 2015, sendo a primeira pessoa negra, a ser homenageado neste espaço.

1944 – Criação da Casa de Estudantes do Império (CEI)

Referências
- Castelo, C. (2010). A Casa dos Estudantes do Império: lugar de memória anticolonial. Trabalho apresentado no 7.º Congresso Ibérico de Estudos Africanos, Lisboa.
- Castelo, C. (1997). “Casa dos Estudantes do Império (1944-1965): uma síntese histórica”, Mensagem: número especial, 23-29.
- Castelo, C. & Jerónimo, M.B. (org.) (2017). Casa dos Estudantes do Império: Dinâmicas Coloniais, Conexões Transnacionais. Lisboa: Edições 70.
- Domingos, N. (2014). O lugar de Eusébio na “grande sociedade portuguesa”. In V. A. Melo et al. (eds.), Esporte, cultura, nação, Estado – Brasil e Portugal. Rio de Janeiro: 7 Letras, 156-171.
- Domingos, N. (2020). Eusébio, o lusotropicalismo e a globalização dos ídolos desportivos. In Fiolhais, C. et al. (coord.), História Global de Portugal. [S.l.]: Círculo de Leitores, 625-631.
- Malheiro, J. (2005). Eusébio – A Minha História. Lisboa: Quidnovi.
1950's
1960's
1961 | Início da Guerra pela independência dos países sob jugo colonial português (Huambo, Angola)
1967 | Arlindo de Jesus Brito, Primeiro Motorista Negro da Carris

1960 a 1970 – Vaga de emigração portuguesa
Vaga de emigração portuguesa, motivada pela crise do setor agrícola, a incapacidade de os setores económicos absorverem a população rural que abandonava os campos, a repressão política pela ditadura e a fuga à guerra colonial. Vinda de migrantes ou refugiados das ex-colónias africanas.
1974 | 25 de abril
Revolução dos Cravos iniciada pelos dirigente africanos que pretendiam a independência dos países ainda sob jugo colonial. A própria mensagem/musica de inicio da revolução em Portugal dá-se na zona do país com maior espirito revolucionário e de luta contra a exploração laboral ou escrava da região de forte presença africana que é o vale do sado, e mais especificamente a cidade de Grândola que é morena na canção pela sua forte presença ancestral africana. Apogeu nos 10 anos seguintes das migrações africanas em grande número para Portugal.

Alfredo Cunha, Revolução de 25 de Abril de 1974 [Lisboa, 1974-04-25]

Alfredo Cunha, Revolução de 25 de Abril de 1974 [Lisboa, 1974-04-25]
FONTES E REFRÊNCIAS
ARQUIVO FOTOGRÁFICO DE LISBOA.
1975 | Refugiados das guerras coloniais, migrações económicas
1980's
1987.02.17 | Criação da AGUINENSO – Associação Guineense de Solidariedade Social
1988 | Edição do Livro “Os Negros em Portugal: Um passado Silencioso”, de José Ramos Tinhorão. O livro seria reeditado em 2019, espelhando o crescimento do debate sobre os legados da presença africana e negra no país.
José Ramos Tinhorão, publicou, em 1998, Os Negros em Portugal: Uma Presença Silenciosa, um livro que se demora na contextualização histórico-política do papel de Portugal na inauguração da escravatura transatlântica e no mapeamento da presença negra no país, desde os finais do século XV aos finais do século XVI. O trabalho de Tinhorão é, por isso mesmo, basilar para compreender a extensão o número dessa presença nas mais diversas latitudes do país olhando tanto para a vida social das pessoas escravizadas através do trabalho, do território, da religiosidade, da política e das artes performativas, como também a estratégia política e as narrativas por parte das classes brancas dominantes através do uso da diplomacia, da promulgação de legislação e da elaboração de narrativas literárias, teatrais ou linguísticas que responsáveis pela ridicularização, desumanização e subalternização das pessoas escravizadas. Importante, ao longo do livro, o autor nomeia um conjunto de pessoas negras relevantes para a história do país, mostrando como esta presença duradoura influenciou a língua, as artes e a cultura de um modo geral, já que a partir de determinada altura as pessoas negras estavam perfeitamente integradas na malha social da cidade de lisboa, coabitando e relacionando-se com a classe baixa branca portuguesa, em bairros como Alfama, Mouraria ou Madragoa – e, como tal, com eles coproduzindo vida urbana.

1989 | Início do primeiro grupo de RAP feminino conhecido em Portugal – as Djamal.

Referências
- Martins, B.S. (2019). Os Negros em Portugal, Buala, 26 de maio. https://www.buala.org/pt/a-ler/os-negros-em-portugal.
- Simões, S. (2018). Fixar o (in)visível: papéis e repertórios de luta dos dois primeiros grupos de Rap femininos a gravar em Portugal, Cadernos de Arte e Antropologia 7 (1), 97-114.
- Simões, S. (2017). 1990-1997, percursos da invisibilidade. As mulheres no RAP: afirmação e resistência, Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa, setembro. [https://www.muralsonoro.com/mural-sonoro-pt/2017/11/12/raprodues-de-memria-1990-1997-percursos-da-invisibilidade] .
- Tinhorão, J.R. (1988). Os Negros em Portugal – Uma presença silenciosa. Lisboa: Editorial Caminho.
- Varela, P (2020). Antirracismo e o Rap no Feminino, Mural Sonoro, Maio.
1990's
1990 | Fundação do Movimento SOS Rascismo

1991 – 1995 | Fernando Gomes Ka foi deputado do Partido Socialista na VI Legislatura

1992 | José Mussuaili torna-se o primeiro pivot negro a apresentar um telejornal na televisão portuguesa, no canal de televisão TVI

1993 | É promulgado o Programa Especial de Realojamento (PER)
1993 | Lançamento do Livro Lisboa Africana
1994 | Sara Tavares vence o Chuva de Estrelas

1996 | É criada a Associação Batoto Yetu Portugal

1996 | Processo de regularização extraordinária de Imigrantes
1996 | Rapper Djoek lança Nada Mí N’Caten, o primeiro albúm cantado em cabo-verdiano crioulo em Portugal

1997 | Publicação do Livro Origens do Nacionalismo Africano: Continuidade e ruptura nos movimentos unitários emergentes da luta contra a dominação colonial portuguesa 1911-1961.

1998 | Encontrados os restos mortais da “Criança do Lapedo”, no Abrigo do Lagar Velho, no Vale do Lapedo (Leiria), do período Gravetense, no Paleolítico Superior, há 24.500 anos que apresentava características neandertais e de humanos modernos.

1999 | Criação da Rede Anti-Racista
Referências
- Agualusa, J., Rocha, E. & Semedo, F. (1993). Lisboa Africana. Porto: Edições ASA.
- Almeida, F. et al. (2007). The Lapedo Child Reborn: Contributions of CT Scanning and Rapid Prototyping for an Upper Paleolithic Infant Burial and Face Reconstruction. The Case of Lagar Velho Interpretation Centre, Leiria, Portugal. In D. Arnold, F. Niccolucci & A.Chalmers (eds.), The 8th International Symposium on Virtual reality, Archaeology and Cultural Heritage. Short and Project Papers from VAST 2007, 69-73.
- Andrade, M. P. (1997). Origens do Nacionalismo Africano: Continuidade e Ruptura nos Movimentos Unitários Emergentes da Luta contra a Dominação Colonial Portuguesa 1911-1961. Lisboa: Dom Quixote.
- Duarte, C. et al. (1999). The early Upper Paleolithic human skeleton from the Abrigo do Lagar Velho (Portugal) and modern human emergence in Iberia, PNAS USA 96, 7604–7609.
- Grossegesse, O. & Thorau, H. (orgs.) (2009). À Procura da Lisboa Africana: Da Encenação do Império Ultramarino às Realidades Suburbanas. Braga: Universidade do Minho. Centro de Estudos Humanísticos.
- Patrocínio, F. (2023). Há 29.000 anos… era uma vez a criança do Lapedo, National Geographic, 7 de dezembro. [https://www.nationalgeographic.pt/historia/crianca-lapedo-leiria-arqueologia-gravetense_4450]
- Zilhão, J. (2005). A criança do Lapedo e as origens do homem moderno na Península Ibérica, Promontoria 3 (3), 135-172.
2000's
2005 | Yves-Jean Loude publica Lisboa, na Cidade Negra.
2007 | Cimeira Europa-África de Lisboa
2008 | A intelectual e artista portuguesa radicada na Holanda, Grada Kilomba, publica o livro Memórias da Plantação. Demoraria mais de uma década para que o livro fosse traduzido para português, pela editora Orfeu Negro.
2009 | Descoberta de um cemitério de pessoas escravizadas no Vale da Gafaria, em Lagos

Referências
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- Coelho, C. (2012). Uma identidade perdida no mar e reencontrada nos ossos: avaliação das afinidades populacionais de uma amostra de escravos dos séculos XV–XVI. 2012. Dissertação de Mestrado em Evolução e Biologia Humana, Universidade de Coimbra. Coimbra, Portugal.
- Coelho, C. et al. (2017). Ancestry Estimation Based on Morphoscopic Traits in a Sample of African Slaves from Lagos, Portugal (15th-17th Centuries), International Journal of Osteoarchaeology 27 (2), 320–326.
- Costa, A.F. (2013). Os Infantes de Lagos: um estudo de crescimento numa amostra de não-adultos do Poço dos Negros (séculos XV-XVII). Dissertação de Mestrado em Evolução e Biologia Humanas, apresentada ao Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Coimbra, Portugal.
- Ferreira, M. T. et al. (2019b). Evidences of Trauma in Adult African Enslaved Individuals from Valle da Gafaria, Lagos, Portugal (15th-17th Centuries), Journal of Forensic and Legal Medicine 65, 68–75.
- Ferreira, M.T. et al. (2019a). Discarded in the Trash: Burials of African Enslaved Individuals in Valle da Gafaria, Lagos, Portugal (15th-17th Centuries), International Journal Osteoarchaeology 29 (4), 670–680.
- Ferreira, M. T. et al. (2013). Lagos leprosarium (Portugal): Evidences of Disease, Journal of Archaeological Science 40 (5), 2298–2307.
- Furtado, M. (2012). A diagnose sexual de escravos africanos: estimativa sexual a partir de os coxae da colecção osteológica negróide de PAVd’09 (Valle da Gafaria, Lagos). Mestrado em Evolução Humana e Biologia, Universidade de Coimbra. Coimbra, Portugal.
- Kilomba, G. (2019). Memórias da Plantação. Lisboa: Orfeu Negro. [https://www.ufrb.edu.br/ppgcom/images/MEMORIAS_DA_PLANTACAO_-_EPISODIOS_DE_RAC_1_GRADA.pdf ]
- Loude, J. (2005). Lisboa, na Cidade Negra. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
- Neves, M.J. (2015). O Caso do “Poço dos Negros” (Lagos): Da Urgência do Betão ao Conhecimento das Práticas Esclavagistas no Portugal Moderno a partir de uma Escavação de Arqueologia Preventiva, Antrope, 142-160.
- Neves, M.J. et al. (2011). História de um Arrabalde durate os séculos XV e XVI: o “Poço dos Negros” em Lagos (Portugal) e o seu contributo para o estudo dos escravos africanos em Portugal, A Herança do Infante: História, Arqueologia e Museologia em Lagos, 29-46.
- Neves, M.J. et al. (2010). Separados na vida e na morte: retrato do tratamento mortuário dado aos escravos africanos na cidade moderna de Lagos, XELB 10. Silves: Câmara Municipal de Silves, 547-560.
- Pinto, A.E. (2023). Esquecimento e Restos Humanos: O Caso do Vale da Gafaria. Dissertação de Mestrado em Património Cultural e Museologia apresentada à Faculdade de Letras. Lisboa, Portugal.
- Rodrigues, C.A. (2018). Estimativa da idade através do racio área polpar/área do dente numa amostra de esqueletos de escravos Africanos (Lagos, Portugal). Dissertação de Mestrado em Evolução e Biologia Humanas, Universidade de Coimbra. Coimbra, Portugal.
- Rufino, A.I. et al. (2017). Periapical lesions in intentionally modified teeth in a skeletal sample of enslaved Africans (Lagos, Portugal), International Journal of Osteoarchaeology 27: 288–297.
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Wasterlain, S. et al. (2016). Dental Modifications in a Skeletal Sample of Enslaved Africans Found at Lagos (Portugal), International Journal of Osteoarchaeology 26 (4): 621–632.
2010's
2014 | Criação da Rádio AFROLIS

2015 | A escritora Djamila Pereira de Almeida lança o seu primeiro livro, Esse Cabelo, um romance ensaio que conta, reconhece e reflete sobre a construção da identidade das mulheres negras em Portuga e a sua relação com a geopolítica colonial. A este livro seguiram-se Lisboa, Luanda Paraíso, A Visão das Plantas e Três Histórias de Esquecimento.

2015 | Francisca Van-Dunen torna-se a primeira mulher negra a ser Ministra da Justiça, no XXII Governo Constitucional de Portugal

2016.03.21 | Fundação da FEMAFRO – Associação de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes em Portugal

2016.05.25 | Criação da DJASS

2016.12.08 | Publicação de uma Carta Aberta de Organizações Afrodescentes portuguesas dirigida ao Comité da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial.
2017 | A DJASS – Associação de Afrodescendentes propõe e ganha um projeto que contempla a edificação de um Memorial em Homenagem às Pessoas Escravizadas, no âmbito do Orçamento Participativo da cidade de Lisboa. Após um processo participativo, o projeto vencedor é do artista plástico Kiluanji Kia Henda.

2017 | Telma Tvon lança o livro Um preto muito português.

2017.04 | Marcelo Rebelo de Sousa visita a “Casa dos Escravos” na Ilha de Gorée, Senegal – um marco fundamental no tráfico de pessoas escravizadas, sob o domínio português entre os séculos XVI e XIX. Embora reconhecendo a violência inerente ao tráfico transatlântico, o então presidente da república portuguesa não pediu desculpa pelo papel dos portuguese no processo, sublinhando, pelo contrário o suposto papel pioneiro do país na abolição da escravatura, reportando-a ao ano de 1761, em que o país se limita a abolir o tráfico de pessoas escravizadas para a então metrópole, de modo a canalizar mão-de-obra para o Brasil. O tráfico só viria a ser abolido oficialmente em 1869.
2018.06.22 | Uma centena de intelectuais e ativistas negros publicam a carta “Não a um museu contra nós”, em contestação à proposta do então presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, da edificação de um “Museu dos Descobrimentos”.
2018 | A poetisa Gisela Casimiro lança Erosão, o seu primeiro livro de poesia, ao qual se seguiriam Giz (2023) e Estendais (2023).

2018.07.14 | Descoberta de um crânio de 400.000 anos na gruta da Aroeira, no complexo arqueológico da Almonda (Torres Novas) – o fóssil mais antigo descoberto em Portugal até ao momento, do período do Plistocénico Médio (entre 700 mil e 125 mil anos antes do presente).
2018 | Criação do Instituto da Mulher Negra em Portugal (IMUNE)

2019.09 | Criação do Projeto Afrolink [https://afrolink.pt/sobre/]
2019 | Eleição de três mulheres negras com deputadas da Assembleia da República Portuguesa: Beatriz Gomes Dias (Bloco de Esquerda), Joacine Katar Moreira (Livre) e Romualda Fernandes (Partido Socialista)

2019.07.04-09| Portugal recebe a Conferência Black Invisibilities Contested: 7th Bienal Afroeuropeans Network Conference, no ISCTE – IUL, em Lisboa.
2019 | Início do Programa Cidade Invisível – Antena 1 [https://www.rtp.pt/play/p6377/e438280/cidade-invisivel]
2019 | Criação do Podcast “O Lado Negro da Força” [https://www.facebook.com/oladonegrodaforca2019/videos]
2019 | Exposição “Para uma história do Movimento Negro em Portugal. 1911-1933”, por Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela, Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (ESE-IPS)
Referências
- Afrolis et al. (2016). Carta aberta de organizações afrodescendentes portuguesas ao CERD, Museu Afrodigital: Estação Portugal, 8 dezembro.
- Almeida, D.P. (2021). Três Histórias de Esquecimento. Lisboa: Relógio d’Água.
- Almeida, D.P. (2019). A Visão das Plantas. Lisboa: Relógio d’ Água.
- Almeida, D.P. (2018). Luanda, Lisboa, Paraíso. Lisboa: Companhia das Letras.
- Almeida, D.P. (2015). Esse Cabelo. Lisboa: Relógio d’Água.
- Amado, A. D (2018), “Não a um Museu contra Nós”, Público, 22 de junho.
- Casimiro, G. (2023). Estendais. Lisboa: Editorial Caminho.
- Casimiro, G. (2023). Giz. São Paulo: Editora Urutau.
- Casimiro, G. (2018). Erosão. São Paulo: Editora Urutau.
- Daura, J., et al. (2017). A 400,000-year-old Acheulean assemblage associated with the Aroeira-3 human cranium (Gruta da Aroeira, Almonda karst system, Portugal). [https://doi.org/10.1016/j.crpv.2018.03.003]
- Dias, B. (2018). Por um memorial de homenagem às pessoas escravizadas, Ipsilón – Público, 16 de maio [https://www.publico.pt/2018/05/16/culturaipsilon/opiniao/por-um-memorial-de-homenagem-as-pessoas-escravizadas-1829390].
- Gorjão Henriques, J. (2019). Centenas debatem racismo e o que é ser negro na Europa “nos seus próprios termos”, Público, 3 de julho.[https://www.publico.pt/2019/07/03/sociedade/noticia/centenas-debatem-racismo-negro-europa-proprios-termos-lisboa-1878620.
- Gorjão Henriques, J. (2019). Fez-se história: Parlamento terá três deputadas negras, Público, 7 de outubro.[https://www.publico.pt/2019/10/07/politica/noticia/eleicoes-historicas-elegem-tres-deputadas-negras-1889146].
- Henriques, J.G. e Santos, N.F. (2020). Nasceu Afrolink, o site que dá rosto à diversidade de profissionais negros em Portugal, Público, 16 de agosto.
- Lovegrove, S. & Machaqueiro, R.R. (2024). Contesting monuments, challenging narratives: Divergent approaches to dealing with the colonial past and its legacies in Lisbon, Portugal, Journal of Historical Geography 83, 84-95.
- Peralta, E. e Domingos, N. (2019). Lisbon: Reading the (Post-)Colonial City from the Nineteenth to the Twenty-First Century, Urban History 46 (2), 246-265.
- RTP África (2016). Entrevista a Beatriz Dias [Djass – Associação de Afrodescendentes], Bem-Vindos, 13 de junho [https://www.youtube.com/watch?v=R83VEwVwhOI].
- Tvon, T. (2017). Um preto muito português. Lisboa: Chiado Books.
2020's
2020.10 | Câmara Municipal de Lisboa inaugura uma placa na Rua Garret em homenagem a Alcindo Monteiro brutalmente assassinado por neonazis a 10 de Junho de 1995.

2020.10.19 | Inauguração da Exposição “Territórios da Memória: A Área Metropolitana de Lisboa pelo Olhar de Africanos e Afrodescendentes” que nasce de um conjunto de diálogos que narram as memórias de homens e mulheres que migraram pra Portugal no início do século XX.

2020.12.10 | Estreia do Podcast do “Viemos para Ficar” (SOS Racismo) [https://www.sosracismo.pt/geral/viemos-para-ficar-podcast-anti-racista]
2021 | Reedição do Jornal O Negro, pela editora Falas Afrikanas
2022 | O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) criminaliza o Drill (um sub- género do trap, dentro do rap) que, à imagem do que aconteceu nos anos 90, é uma forma de criminalizar o pensamento, a palavra e a existência da juventude negra em Portugal, associando estes jovens à ascensão da criminalidade grupal. Pelo contrário, o Dril deve ser lido como um diagnóstico uma reflexão destes jovens sobre as suas vidas.
2023.11.19 | Morte da cantora Sara Tavares.
2024.01.13 | Inauguração de uma estátua e 20 placas toponímicas que evocam a presença africana na cidade de Lisboa, promovido pela Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu Portugal no âmbito do Programa BIP/ZIP.

Referências
- Alves, A.R. e Amorim, S. (2019). Territórios da Memória: A Área Metropolitana de Lisboa pelo Olhar de Africanos e Afrodescendentes, Afrodescendência em Portugal: sociabilidades, representações e dinâmicas sociopolíticas e culturais. Um estudo na Área Metropolitana de Lisboa, Centro Cultural de Cabo Verde. [https://www.rtp.pt/play/p6591/e510182/bem-vindos].
- Dores, M. (2020). Alcindo. SOS Racismo e Maus da Fita.
- Gabmorrisson (2022) Cova da Moura: la dernière favela d’Europe (avec Nico OG). [https://www.youtube.com/watch?v=aHaGyyzdVzE]
- Gabmorrisson (2022). Visite du quartier Reboleira avec Kats XRootz (Portugal). [https://www.youtube.com/watch?v=6EzgWHMaEJA].
- Gabmorrisson (2022). Sucupira: le quartier abandonné du Portugal (avec Leo2745). [https://www.youtube.com/watch?v=Y4ro2uHXAjM]
- Gabmorrisson (2022). Immersion à Amadora au Portugal avec PDB & RDB (Casal da Boba). [https://www.youtube.com/watch?v=kXk8l0wZDoU]
- Gabmorrisson (2022). Quinta do Mocho: Quartier chaud du Portugal (avec RDM). [https://www.youtube.com/watch?v=pQhYQrEk9Ww]
- Gabmorrisson (2022). Reportage: Les quartiers de Porto (avec TZ35 & Xaxxa). [https://www.youtube.com/watch?v=6mG-JKCixtE]
- Rádio TV Cidade (2021). XROOTZ fala sobre PREGO PREGO, críticas, uso di máskara, drill e más, dezembro [https://www.youtube.com/watch?v=8ThC8Ukn9ug&t=654s]
- Roldão, C., Pereira, J.A. e Varela, P (org.) (2021). O Negro. Órgão de Estudantes Negros. Lisboa: Falas Afrikanas.
